Protesto pela morte do menino Kaic

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Na última sexta-feira, 28/10/16, centenas de pessoas se reuniram no local do homicídio da criança de 12 anos que ia pedalando pela ciclovia da Avenida Godofredo Maciel quando uma Land Rover guiada pela motorista Ana Paula Rodrigues Muniz, ao fazer a conversão na ciclovia, não parou e atropelou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel, arrastando-o por dezenas de metros pela avenida, na frente de sua mãe e de outras testemunhas que presenciaram essa homicídio brutal.

O evento do protesto teve início com a concentração na Praça da Gentilândia, no bairro do Benfica, em Fortaleza. Por volta das 19h centenas de ciclistas saíram rumo ao local do “”acidente””, onde seria realizado o ato em protesto pela morte dele.

No decorrer do longo caminho pudemos ter uma boa mostra de como nosso trânsito é hostil e de como uma enorme parcela dos motoristas são pessoas extremamente agressivas ao volante. Durante o percurso não foram raras as vezes de motoristas querendo ameaçar com seus carros a multidão que pedalava à frente. Muitos motoqueiros também, extremamente hostis ao protesto, tentaram jogar suas motos em cima das pessoas e atravessar na força de seus motores um protesto com centenas de bicicletas.

Nos muitos cruzamentos fechados ao longo da bicicletada de protesto, poucos se solidarizaram com o ocorrido, sendo comum xingamentos e roncos de motores para tentar fazer as pessoas do protesto saírem da frente, afinal de contas, o significado de tudo aquilo e a importância de um ato como aquele não eram mais importantes do que a mesquinhez de muitos desses motoristas.

Passamos por inúmeros bares lotados, com carros estacionados nas calçadas, carros de motoristas que com certeza sairiam dali embriagados e ainda mais inaptos para guiar uma máquina tão perigosa, bares onde fomos muitas vezes hostilizados, ridicularizados, onde muitas pessoas de espírito podre faziam chacota com tudo aquilo, chacota com um protesto feito para uma criança brutalmente morta. Nesses pontos, felizmente a voz das centenas que ali estavam, juntamente com apitos e campainhas das bicicletas foram muito mais fortes, para vaiar aquele tipo de comportamento imundo.

Mas nem tudo foi tão ruim, em muitos pontos também recebemos apoio, de pessoas das janelas de suas casas, calçadas, pessoas que abriam suas portas para ver aquele mar de bicicletas passando em suas pequenas ruas e fazer questão de apoiar o movimento. Um momento raro de união de ciclistas dos mais diversos nichos, desde ciclistas urbanos mais experientes a ciclistas de passeio, ciclistas acostumados com bicicletadas e manifestações e pessoas ainda um pouco tímidas com tudo aquilo, sem dúvidas um intercâmbio valioso, e quem foi para aquela manifestação e ainda tinha uma visão um pouco limitada sobre o ciclismo urbano sem dúvidas teve seus horizontes ampliados.

Ao longo de todo o trajeto uma bicicleta cargueira foi levando a Ghost Bike de Kaic, que seria pendurada no poste em frente ao local que aquela motorista o matou, para que quem passar por ali nunca esqueça que naquele local um assassinato foi cometido.

Mas sem dúvidas, de todas as imagens, incluindo as do momento da fixação da Ghost Bike no poste, da tinta na ciclovia e no asfalto com dizeres de protesto pela morte, além das labaredas dos pneus queimados, chamando a atenção para a grandeza daquele ato de repúdio, apesar de tudo isso, a imagem mais marcante foi a do momento do encontro da bicicletada com as dezenas de crianças do colégio do Kaic que nos esperavam com balões brancos, camisas com fotos dele e cartazes de protesto, crianças e adolescentes puxando vários coros, pulando, protestando com uma vitalidade e simplicidade que nem mesmo aquelas centenas de pessoas de bicicleta foram capazes de realizar. Sem dúvidas uma cena marcante que ficará na memória.

Infelizmente, o saldo que fica após esse protesto é que ainda temos muito, muito o que evoluir, que nossa cidade, mesmo com um avanço na construção de estrutura cicloviária, ainda é destinada quase que exclusivamente aos carros, não às pessoas, e que nossos motoristas, em grande parcela, são pessoas que não deveriam poder guiar máquinas tão perigosas. No entanto essa luta já começou, e por conta dessa luta temos conseguido avanços, hoje uma morte como a do Kaic não passa mais em branco. Já imaginaram se isso fosse há cinco anos? Se hoje uma considerável parcela dos motoristas de Fortaleza sentem empatia com a motorista que matou o menino, imaginem como seria antes, sem toda essa oposição.

Nossa luta diária tem dado resultado, tem incentivado cada vez mais pessoas a pedalarem no dia-a-dia e tornado nossa cidade muito mais humana, dado muito mais senso crítico às pessoas, e isso tende a aumentar ainda mais. Chegaremos ao ponto em que atitudes como as daquelas pessoas podres que nos hostilizaram no protesto serão absolutamente inaceitáveis pela esmagadora maioria, chegará o momento em que será inadmissível pelo senso comum um motorista colocar em risco a vida de uma pessoa de bicicleta no trânsito, chegará o dia em que será considerado seguro, por todos, usar uma bicicleta na cidade, mas até lá precisaremos de muita luta, muita cobrança e do esforço individual de cada um, mas chegaremos lá. Antes diziam que era uma utopia, hoje, com poucos anos de militância, já sabem que é questão de tempo. Vamos diminuir esse tempo.

Confiram as fotos do evento de protesto pela morte do menino Kaic:

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Vinícius Reis

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Motoristas ainda sentem empatia por quem mata no trânsito

bike-kaic

Foto: Jornal O Povo

Vamos começar esse texto com a definição de empatia pelo dicionário michaelis:

“1 Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.

2 Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.

3 Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura.

[…]”

Essa semana, como muitos já sabem, uma motorista guiando seu Land Rover Discovery 4 de mais de 2,5 toneladas atropelou uma criança que ia pedalando juntamente com sua mãe para a igreja no domingo de manhã. A motorista foi fazer um retorno e simplesmente arrastou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel. A motorista, identificada como Ana Paula Rodrigues Muniz, em depoimento afirmou não ter visto o ocorrido, que só sentiu uma pancada no carro e ainda assim arrancou. Estranhamente, mesmo sem supostamente saber de nada do que aconteceu, já que “só sentiu uma pancada”, se apresentou à polícia como condutora do veículo pouco tempo depois na presença de um advogado.

Vamos lá. Esse texto não tem como objetivo confrontar a versão da motorista, se faz sentido ou não, se é real ou se é só uma estratégia da defesa para tentar safá-la de alguma punição, aproveitando leis ultrapassadas e ineficazes para crimes de trânsito, e um Judiciário que historicamente não tem tratado isso com o devido rigor. Também não tem objetivo de falar de todas as leis do Código de Trânsito Brasileiro que ela transgrediu, da sua falta de atenção ou de que não existem desculpas esfarrapadas nem justificativas mirabolantes que absolvam esse tipo de conduta quando se guia um carro. Para isso teremos outras oportunidades.

Esse texto vem falar especificamente da empatia que muitos (muitos mesmo) motoristas de Fortaleza tiveram com a motorista que causou o homicídio da criança, e não só motoristas, pessoas em geral, que muitas vezes não possuem carro ou CNH, que jamais guiaram um carro na vida e que raramente andam em um, pessoas que sofrem diariamente com o desrespeito de motoristas irresponsáveis, mas que acreditam, por conta de uma sociedade com uma mentalidade arcaica, que os carros possuem sempre a prioridade, e que elas devem fazer de tudo para não atrapalharem um carro, pessoas para as quais não é o carro o vilão que atropela, mas sim as pessoas irresponsáveis que são atropeladas, lembra inclusive um episódio do Chaves, de 1978, quando ele fala que:”Os carros só atropelam os idiotas” (9’35). Em Fortaleza, em 2016, a consciência de parte da coletividade ainda é semelhante.

Nos últimos dias, após todo o alvoroço das notícias iniciais da morte horrenda do menino, começaram os comentários, as conversas, as análises pessoais de cada um sobre o ocorrido, e o que já era esperado infelizmente se confirmou. Pessoas, muitas pessoas, talvez você que lê esse texto e com certeza absoluta pessoas que você conhece, que ao invés de se indignarem com o atropelamento, com a morte da criança, com seu arrastamento pela avenida, começaram a questionar se a culpa de fato não era da mãe da criança, se a culpa, pasmem, não seria da própria criança.

E não se limitou só a esses questionamentos, ao longo da semana, seja nas ruas, seja nas redes sociais, começaram a haver muitos comentários e compartilhamentos de pessoas criticando abertamente a mãe que viu seu filho morrer na sua frente e a criança que morreu. Muitos dizendo que ela era uma irresponsável por estar andando de bicicleta com seu filho, sabendo que “ali passa carro”, como se a culpa fosse da vítima, de ter que prever que ali passam veículos perigosos, e portanto, devesse ficar fora do caminho deles. Não deveriam ser os condutores de carros que deveriam saber que ali passam bicicletas? Ainda mais em uma ciclovia? O que uma pessoa que vai fazer um retorno numa ciclovia acha que vai encontrar? Como pode uma pessoa ser culpada por ser a vítima de uma situação tão absurda? Quer dizer então que se você for assaltado, você é o culpado pois sabe que ali passa ladrão? Uma mulher estuprada é a culpada porque sabe que ali passam estupradores?

Essas pessoas deveriam ter vergonha de si, vergonha de sua mente absolutamente deturpada, de uma consciência completamente desumana, incapaz de se colocar no lugar de uma mãe que estava indo para a igreja, sem fazer absolutamente nada de errado, muito pelo contrário, fazendo algo muito certo, ao ir de bicicleta, pedalando lado-a-lado com seu filho, sem representar risco algum para ninguém, sem colocar 1 único grama de poluição na atmosfera, sem causar poluição sonora, sem colocar a vida de pessoas (como as que fizeram criticas a ela) em risco, fazendo um grande bem para nossa cidade, usando um veículo limpo e humanizador, ocupando as ruas com sua criança, fazendo-o experimentar a cidade, enquanto poderia ter um momento gostoso de conversa, saber como tinha sido a semana dele, jogar conversa fora, reclamar do quarto bagunçado… Essa mãe não é culpada de absolutamente nada, essa mulher e essa criança eram sim responsáveis por tornar nossa cidade um lugar muito melhor de se viver, coisa que motorista algum faz com seu carro, especialmente a que o atropelou. Se essa cidade tivesse mais mães como ela, viveríamos num lugar infinitamente mais humano, mas um raciocínio tão simples como esse parece algo quase utópico na mentalidade neandertal da sociedade que estamos inseridos, uma sociedade do culto ao automóvel, onde o automóvel é tratado como um deus que não erra.

Nesse sentido, da empatia das pessoas para com a motorista, pudemos ver também muitas com uma análise um pouco mais “comedida”, aquelas que não querem criticar, dizem que não querem se posicionar, que não foi bem assim, que temos que esperar (mesmo que até imagens já tenham sido divulgadas e que a própria motorista tenha assumido o homicídio), que só quem pode julgar é Deus… Na verdade, quem diz isso via de regra não passa de um hipócrita, que na realidade não quer “julgar” ou criticar porque sabe que também é motorista, que dirige no dia-a-dia, que vez ou outra tira uma fina ou dá uma fechada em ciclista, que faz conversão em ciclofaixa ou ciclovia sem ver se vem bicicleta, que fazem conversão sem parar o carro para os pedestres passarem, que no fundo sabem que mais dia menos dia podem ser elas numa situação semelhante, e que não gostariam da Lei, da imprensa e da sociedade caindo em cima.

E não só isso, essas pessoas sabem que, mesmo que elas se transformem em excelentes motoristas, seus familiares, parentes, amigos, conhecidos, também são motoristas no dia-a-dia, sabem que muitos deles desrespeitam ciclistas, sabem que há uma chance real de algum deles se envolver em um “”acidente””com bicicleta, e por isso precisam, mesmo que de forma discreta, íntima, lá no fundo da consciência, tentar arranjar alguma justificativa, alguma desculpa, uma forma de sempre a culpa ser do ciclista, ou pelo menos um compartilhamento de culpa, precisam se convencer de que o motorista nessas situações pode sim ser absolvido, pois incomoda pensar que aquela fina, aquela fechada, aquele avanço de preferencial, poderiam ter resultado em uma morte, que elas já poderiam, e ainda podem, matar uma pessoa no trânsito, afinal, guiam um carro. A verdade é que ninguém gosta de pensar que guia uma máquina que pode matar por qualquer descuido, e como esses descuidos frequentemente acontecem por alguma desatenção ou forma irresponsável de dirigir, matar alguém passa a ser uma realidade bem próxima, logo, a culpa não pode ser dela, e sim da vítima, essa sim foi desatenta, essa sim não respeitou, essa sim é inconsequente.

A essa altura o texto já deve estar dando nó no estômago de muitos motoristas, que vão pensar: “Mas os ciclistas também cometem infrações“(leia esse texto), “que o lugar de bicicleta não é na rua”, ou então que “os ciclistas também andam fora das ciclovias“… Na verdade, aqui entre nós, o que você procura é uma justificativa para que matar no trânsito  não seja crime e que essa conduta seja vista como algo “aceitável” pela sociedade. Calma, não estou dizendo que você quer matar alguém, não, estou dizendo que você sabe que a chance disso acontecer é real, que você morre de medo de algum dia, numa dessas suas desatenções, que você bata numa bicicleta, que derrube alguém, e que se isso acontecer você não vai querer ser tratado como um criminoso, não vai querer que a sociedade o veja assim, não irá querer uma foto do seu carro na imprensa, na Rei do Camarote Fortaleza, no Fortaleza de Bike ao Trabalho, no Direitos Urbanos, no Massa Crítica, e claro, não quer uma Carta Aberta como a da Luísa aqui na Prefiro ir de bike. Por isso você tem tanta dificuldade em se identificar com a mãe da criança e com a criança, principalmente se você não anda de bicicleta sozinho, no trânsito do dia-a-dia, se você não tem parentes familiares que pedalam, lembra do começo do texto, da empatia? Pois é. Geralmente nós nos identificamos mais com o que está mais próximo da nossa realidade.

Portanto você, motorista, que está profundamente incomodado de ler esse texto, ler uma verdade que lhe incomoda muito, que provavelmente você já está tentando se convencer de que nada disso é verdade, de que as coisas não são assim, não adianta, você só vai saber disso quando você pedalar no trânsito da cidade, até lá sua visão será extremamente limitada, e você saberá disso no momento que você estiver pedalando no trânsito (não em grupo de pedal). Vá de bicicleta para o trabalho amanhã. Não vai porque tem medo? Medo de que, de você ser o responsável por “se atropelar” ou de ser atropelado por um motorista qualquer? Você, que entra em empatia com motoristas que atropelam no trânsito, talvez não tenha percebido que, se você for atropelado no trânsito, as pessoas que hoje estão juntamente com você se solidarizando com quem atropela, irão continuar se solidarizando com quem o atropelar, já se imaginou, você ou um familiar seu sendo a vítima e várias pessoas colocando a culpa em você ou neles? Gostaria disso? Pois é o que muitos motoristas têm feito, talvez até você.

Fica claro que a tentativa de aliviar a barra de quem pratica crimes de trânsito é uma forma de dar uma garantia, uma segurança para o futuro, porque vai que amanhã seja você. Agora, vamos pensar, será que os que se solidarizam com quem praticou o homicídio ao invés de se   solidarizar com a criança e com a mãe também fariam isso se o menino tivesse levado um tiro de um assaltante enquanto pedalava? Com a mais absoluta certeza que não, mas por quê? Se a criança tivesse sido morta por um “vetim” vocês podem ter certeza que a repercussão e a reprovação social teria sido 100 vezes maior.

Os (As) Motoristas, as chamadas pessoas de bem, que são pais e mães de família, que trabalham… não saem por aí assaltando os outros e dando tiros, logo, se a criança tivesse sido morta dessa forma, aí sim teriam se identificado muito mais com a criança do que com o assaltante, mesmo que o tiro tenha sido acidental, mesmo que o assaltante dissesse que não sabia que a arma estava carregada, ou que pensou que era arma de brinquedo, pois seja de carro, moto, bicicleta ou a pé, todos são passíveis de serem assaltados. Porém, quando entra nos crimes de trânsito a situação já muda, pois eles sabem que atropelar um ciclista é uma possibilidade real para eles, muito mais do que serem atropelados enquanto pedalam, afinal de contas, não pedalam, ou se pedalam, fazem somente em grupos grandes.

E como já dito, essas pessoas também têm amigos, parentes e familiares que dirigem, que tiram finas de ciclistas, que dão fechadas, logo, sabem que existe uma possibilidade bem real disso acontecer na esfera deles, então precisam, mesmo que inconscientemente, se blindar de alguma forma, a chamada “reserva de atropelamento”, que se explica da seguinte forma: Sabem que eles ou pessoas queridas podem atropelar alguém, então é melhor se eximir da culpa, tirar qualquer peso de si e dos outros, já que ninguém quer ser considerado responsável em um atropelamento de ciclista ou pedestre, então é necessário pavimentar um caminho que pode ser trilhado no futuro. É mais fácil fazer isso do que dirigir em velocidade baixa, do que mudar de faixa para ultrapassar a bicicleta, do que olhar para os dois lados e para os retrovisores antes de fazer uma conversão, de deixar a bicicleta ultrapassar antes de fazer a curva, de respeitar uma preferencial…

Imagine agora se fosse você a pessoa morta naquelas circunstâncias, se fosse a sua mãe vendo você morrer daquele jeito, ou você que tem filho, familiares, você vendo essas pessoas morrerem. Agora imagine você vendo essa pessoa sendo arrastada por um SUV enquanto você desesperadamente grita para o motorista parar? E aí, pelo seu senso de moral, você se acharia o errado nessa história em qualquer circunstância? Pois é, será que já não está na hora de rever alguns conceitos?

Você que pensa do jeito do padrão de motorista ilustrado no texto, que ainda coaduna com criminosos de trânsito, pode ter certeza, tão certo quanto o sol amanhã irá nascer, que sua visão sobre isso vai mudar. Talvez não mude porque você será uma pessoa mais humana e consciente por vontade própria, pode até acontecer, e seria bom que fosse assim, mas isso, se ocorrer, pode levar algum tempo. Sua visão sobre isso irá mudar porque pessoas próximas a você irão começar a pedalar na cidade, elas irão começar a vivenciar os desrespeitos que motoristas como você praticam todos os dias nas ruas, vão discutir com pessoas como você, que desrespeita pedestres e ciclistas e ainda acha que está com a razão. Pessoas como você a cada dia que passa ficarão cercadas num mundo isolado, onde o grau de reprovabilidade da conduta de quem atropela ou desrespeita no trânsito será cada vez maior. O cerco está fechando. (Leia esse também).

Apesar de todo o teor consideravelmente crítico do texto, é importante deixar claro que isso não é uma generalização, mas trata sim de uma grande parcela dos motoristas de Fortaleza, e foi escrito especialmente para eles, talvez você seja um deles, mesmo que em parte, talvez não, mas o texto nivela por eles. No entanto, felizmente muitos motoristas estão começando a pedalar e outros tantos possuem mais consciência e sabem que no trânsito seus carros são perigosos e por isso devem sempre guiá-los com o máximo cuidado, sem inventar desculpas, sem justificativas para desrespeitar alguém.

As pessoas precisam aprender que não são motoristas, são pessoas, são seres humanos. Ser motorista não é pertencer a uma classe de pessoas, ser motorista é só ter uma CNH e saber guiar um carro, e boa parte das pessoas que andam de bicicleta são motoristas também, dirigem vez ou outra, logo, são tão motoristas quanto pessoas que se acham membros da “classe dos motoristas”. Você é motorista, é pedestre, é usuário de transporte público, é ciclista, é profissional de alguma área, é fã de alguma banda… Não se deixe levar por empatia como se você por “ser motorista” fosse da mesma “casta” de pessoas que cometem crimes de trânsito, uma “casta superior” na qual muitos motoristas pensam pertencer, só pelo fato de serem motoristas. Você, antes de tudo, é uma pessoa, frágil como aquela criança, portanto, importe-se mais e tenha mais empatia com quem de fato merece. Mas é claro, isso tudo no fim não passa de uma opinião, resta a você a palavra final.


Vinícius Reis

Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida

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Carta Aberta de autoria de Luísa Pinheiro

Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida essa noite na ciclofaixa da Canuto de Aguiar

Você não deve saber, mas desde há pouco estamos comemorando o Dia Mundial Sem Carro. Tampouco você sabe que dia 31/08 completou um ano desde que eu deixei de ser motorista e virei ciclista em tempo integral. Nesse tempo a minha vida e as minhas percepções mudaram sobremaneira. Na verdade elas já vinham mudando há mais tempo, mas enfrentar o trânsito oferecendo a fragilidade do meu corpo como único escudo todo os dias sedimentou essas mudanças. Mas desconfio que você não se importa.

Se você se importasse, não teria convergido atravessando uma ciclofaixa em tamanha velocidade com um carro tão grande sem ver se havia algum ciclista passando. Por um átimo de segundo eu me vi embaixo do seu carro de mais de duas toneladas. Vi meus planos para o futuro serem esmagados pelo peso da sua pressa. Vi meu filho sem mãe. Minha mãe sem filha. Tive uma crise nervosa quando finalmente parei, depois que a descarga de adrenalina estabilizou e a ficha caiu. Chorei horrores, no meio do supermercado, enquanto tentava manter a normalidade da minha rotina. Ainda não consegui dormir de tão angustiada. Mas você não deve se importar.

Se você se importasse, ao conseguir escapar por uma combinação de sorte e reflexo, mesmo ainda tendo sido colhida de rebarba (até agora há pouco, antes de conseguir tomar banho, ainda tinha as marcas do seu pneu gigantesco no meu joelho esquerdo, como ainda está marcado o aro amassado da minha bicicleta) e te alcançar dois quarteirões depois (porque não importa sua pressa numa cidade onde não cabem mais carros) você não teria me dito cinicamente que eu deveria colocar um pisca alerta pra você poder me enxergar. Eu tinha acabado de te dizer que você quase havia me atropelado, mas você não ligou. Fez pouco caso, debochou, sugeriu que a culpa fosse minha porque, olha só, minha bicicleta não tem algo que é obrigatório apenas para veículos *motorizados*.

De dentro do seu carro caro, com fumê e ar condicionado, alto, acima dos reles mortais, você não liga. Não duvido que você não tenha me visto mesmo, porque gente como você não tem capacidade de enxergar os outros. Pessoas como você são a pior espécie de gente que pode existir nessa cidade. São o motivo de eu tantas vezes pensar em ir embora daqui. Não é o vetim que também anda de bike e rouba celular não. É gente rica escrota. Igual a você. Porque inclusive o vetim só existe porque vocês são assim, podres e ruins. Atropelam tudo e todos, real ou metaforicamente, não se importam com ninguém.

Por não me conhecer, você também não sabe que eu trabalho no IJF. E não sabe que toda semana eu recebo vítimas do trânsito lá. Muitos, ciclistas. A maioria vítimas de atropelamento por pessoas que, como você, não se importam de preservar a vida dos outros. Não tenho estatística formal, é um dado empírico (que eu pretendo transformar em pesquisa acadêmica, agora mais do que nunca) mas em cada dez ciclistas que atendo no plantão, cerca de sete são atropelamentos e não meras quedas. Já tive muitos amigos atropelados. Já soube de outros tantos casos, de mortes e vidas interrompidas pela invalidez. Essa foto chocante que está aí é de uma paciente que operei há alguns meses, atropelada enquanto pedalava. É o resultado direto da irresponsabilidade de motoristas como você. Mas você não se importa.

A você importa sua pressa. Seu status. Sua aparência. O que são vidas diante disso, não é mesmo? Não te conheço, nem sei seu nome ou o que você faz, mas pelo breve encontro que tivemos hoje, eu posso dizer com segurança que, pra mim, você é uma pessoa ruim. Porque alguém que quase mata outra pessoa e, ao saber disso, não se preocupa com a integridade física dela ou em saber se ela está bem mas com a cara mais cínica tenta jogar a culpa pra cima da vítima não pode ser uma pessoa bacana. Não dá.

O que me entristece é saber que você está longe de ser a minoria no trânsito dessa cidade. Que quando acordar, no dia mundial sem carro, eu vou continuar colocando minha vida em risco pela escolha que eu fiz, e da qual não abro mão, de me locomover de um jeito mais racional e humano pelo lugar onde nasci e vivo há 37 anos. Vou continuar sentindo vontade de ir embora quando outra pessoa ruim como você cruzar meu caminho (e, acredite, isso acontece todos os dias. Todos.) porque cansa demais ser resistência num lugar tão hostil. Talvez eu vá um dia. Mas até lá, continuarei vivendo da forma que eu acredito, e não da forma que o medo impetrado pelas pessoas ruins quer me dizer que eu devo. Mesmo que eu pague com a vida.


Luísa Pinheiro, cirurgiã buco-maxilo-facial no Instituto Doutor José Frota (IJF).

A justificativa dos motoristas para matar

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Essa semana muito me comoveu e indignou o RELATO de um amigo que teve sua vida ameaçada por um motorista pela razão mais banal e imbecil possível. Transcrevo aqui uma parte do que ele contou:

“Hoje, por volta das 6h, quando eu trafegava na Rua Carlos Vasconcelos, fora da ciclofaixa (para evitar o relevo que existe no meio dela no cruzamento com a Rua João Carvalho), o motorista desse Corolla se aproximou buzinando enfurecidamente e ao chegar do meu lado ficou me acompanhando e jogando o carro pra cima de mim para que eu fosse para a ciclofaixa. Eu freei e ele passou. Acho que para “descontar” pelo fato de eu estar na rua, ele trafegou pela ciclofaixa por 1 ou 2 quarteirões.

VIOLÊNCIA GRATUITA A TROCO DE NADA! Nesse horário não tem ninguém, não tem trânsito! Não precisava fazer isso que ele fez.” Lucas Landim

Vamos lá. Não tenho dúvidas de que esse motorista reclama da violência da cidade, que nas suas rodas de conversa fala dos perigos e riscos de Fortaleza, deve falar também dos maus motoristas, do trânsito caótico… aquele velho papo de sempre de como as coisas são ruins. Interessante é pensar que assim que ele termina uma conversa como essa, que pega seu carro para ir para casa ou para o trabalho, morrendo de medo de ser assaltado, possivelmente, ele imediatamente e sem perceber se transforma no risco e no perigo que ele tanto reclama e acusa, lembra até aquele clássico episódio do Pateta motorista. Pode ser um bom pai, marido, amigo, doar uma boa quantia para instituições de caridade e ser um grande entusiasta de uma cidade mais segura, com menos medo, mas quando ele assume um volante, faz esse tipo de coisa. Assalta? Não. Trafica? Não. Só acha justo e moralmente certo colocar vidas em risco, caso ache que existe uma justificativa correta para isso.

Ele(a) ameaça vidas se achando no direito de fazê-lo. O fato é que infelizmente ainda vivemos numa sociedade onde muitas pessoas se sentem no direito (e no dever) de ameaçar a vida de outra pessoa quando pensam estar “certas” e a outra “errada”. Quer tirar a prova? Atravesse fora da faixa de pedestres e veja quantos motoristas ao invés de reduzirem a velocidade, acelerarão e virão com o carro para cima de você, e se você não sair da frente esses motoristas simplesmente irão lhe matar. Outra? Pedale fora da ciclofaixa ou ciclovia e veja quantos motoristas irão buzinar, tirar finas propositais e possivelmente até jogar o carro para cima de você, por acharem que lugar de bicicleta não é na rua, principalmente quando existe uma estrutura para bicicletas, que faz algo que esse tipo de motorista considera terrível, um ultraje: tira espaço do carro dele.

Foi o que esse motorista do relato fez, e ainda inovou, dirigindo propositalmente pela ciclofaixa para “dar o troco”, se vingou, e ainda deve ter se sentido o herói da moral, das leis, do correto, mesmo que para isso tenha se tornado um criminoso e um infrator de trânsito cuja pena, se nosso Código de Trânsito fosse seguido, seria a suspensão do direito de dirigir. Essas pessoas, e você com certeza tem amigos próximos assim, parentes e possivelmente até familiares, tem a errônea e até sanguinária percepção de que, quando alguém faz algo que elas consideram errado (mesmo que banal), automaticamente ganham o direito de matá-las ou ameaçá-las, parece que existe um prazer mórbido em dizer: “a culpa foi dele”. As vezes penso que o sonho de muitos de nossos motoristas seria atropelar um pedestre “errado”, aquele que atravessa fora da faixa, que anda fora da calçada, que atravessa sem subir a passarela (obstáculo para pedestres)… Tudo para poder dizer para a polícia, justiça, para a sociedade, a plenos pulmões: “NÃO FOI MINHA CULPA”, um tipo de auto-absolvição, que lhe inocenta e justifica moralmente seu feito.

Mas o curioso nisso tudo também está na falta de humanidade, de respeito ao próximo, da falta de amor à vida, da falta de percepção que aquela pessoa tem mãe, pai, filhos, parentes, amigos, que ficariam arrasados com sua morte, com seus ferimentos, que enquanto esse motorista estivesse contando abertamente que “a culpa foi da pessoa”, uma família estaria destruída, inconformada com a dor de perder para sempre um ente querido, uma pessoa que tinha um futuro pela frente, ou que já tinha feito uma trajetória de vida belíssima, deixando inclusive muitos filhos, até netos, e tudo isso foi perdido, arrancado, simplesmente por que um motorista achou que “estava certo”. E o que é “estar certo”? É ter o direito de matar uma pessoa que se pensa “estar errada”? Você já pensou se para cada vez que alguém julgou você por “estar errado” essa pessoa tentasse te ameaçar ou matar? Sem nem mesmo perguntar seu motivo, sem entender suas razões, e mesmo se você de fato estivesse errado, ainda sim ameaçasse a sua vida pela simples falta de humanidade?

Pois é isso que acontece no nosso trânsito, motoristas que esquecem sua humanidade do lado de fora do carro, que não perdem uma oportunidade de usá-lo como uma “arma da justiça” contra aqueles que sua consciência julga merecerem “aprender uma lição” ou pagar com a morte pelo seu “erro”. O prazer de poder dizer para uma sociedade desumana que “estava certo” é maior do que a compaixão e o respeito pela vida de outro ser humano.

Vivemos numa sociedade tão atrasada que quando as pessoas veem uma notícia de que uma pessoa morreu atropelada fora da faixa, da calçada, da passarela, a reação normal é imediatamente culpabilizá-la, como se ela tivesse merecido aquilo, e que não foi culpa do motorista. No entanto, pensamentos de que aquilo é um absurdo, de que jamais alguém deveria morrer atropelado nas ruas de uma cidade (veja a Visão Zero), de que uma cidade deve ser pensada para as pessoas, de que o motorista deveria ter sido atento, de que se ele estivesse dirigindo numa velocidade segura isso não teria acontecido, de que se ele não tivesse tirado o carro de casa isso não ocorreria, ainda parecem pensamentos utópicos numa realidade tão provinciana e retrógrada como a que vivemos, de pessoas que ainda pensam ser a rua destinada aos carros, e de que eles são soberanos nelas. Devem esquecer de que por milênios as ruas foram das pessoas, e que atropelamento é uma realidade bastante recente, que já está sendo amplamente combatida em países que  não acham um atropelamento algo normal, com Órgão de Trânsito que trabalham sempre para o respeito à vida, países que valorizam mais as pessoas do que os motores.

Isso tudo, essa mentalidade retrógrada, resultam no final numa cena como essa do começo do texto, um motorista, possivelmente um cidadão de bem, vê um ciclista pedalando fora da ciclofaixa e não quer saber o motivo (não importa nem mesmo se tem motivo), não quer saber se ele é casado, se tem família, se tem uma filha que acabou de nascer, se é uma das pessoas que mais contribuíram nos últimos anos para a questão da Mobilidade Urbana em Fortaleza, se é um ser humano como ele e uma vida tão importante quanto a sua, não, isso para ele não é importante. Na sua ânsia assassina e vingativa de fazer o que julga ser o “certo” contra alguém que julga estar “errado” ele ignora todas as leis de trânsito, se esquece que o fato de uma pessoa não fazer o que ele julga “correto” no trânsito não lhe dá qualquer direito legal de ameaçá-lo ou matá-lo e simplesmente comete um crime, esse sim previsto legalmente, comete também uma das maiores infrações de trânsito contidas no Código de Trânsito Brasileiro (Vide Art. 170), punida com a perda da carteira, tudo isso por uma banalidade e ainda pensando estar certo, pensando ter esse direito. Esse  mesmo motorista é o que acelera ou não reduz a velocidade quando vê alguém atravessando fora da faixa (ou na faixa), que joga o carro em cima de um ciclista que pedala na contramão, que acelera quando passa num cruzamento e vê um ciclista cruzando a via no sinal vermelho, essa é a pessoa que é uma potencial assassina, para a qual uma vida não vale nada, cujo “erro” alheio, por mais banal que seja, deve ser punido com uma ameaça, talvez até com a morte.

Se você é esse tipo de motorista, do tipo potencial criminoso de trânsito, aquele que acha que quando “está certo” pode ameaçar alguém que “está errado”, mude, melhore, lembre que uma cidade é um lugar em que as pessoas devem se sentir seguras e você fazendo isso só contribui para deixar a cidade mais hostil e violenta, só contribui para o aumento do sentimento do medo das pessoas, é você o responsável por uma mãe ou um pai terem medo de deixar seus filhos andarem na cidade e serem atropelados, é você que faz um idoso ter medo de caminhar nela, já que sua desatenção ou lentidão podem ser punidas com a morte, é você o responsável por um(a) amigo(a) querer ir de bicicleta para o trabalho mas não o fazer por medo do trânsito. Seu carro é naturalmente um veículo perigoso, não o faça ser ainda mais, daqui pra frente, mesmo quando você vir uma situação em que pense “estar certo” diante de alguém “errado”, não use isso como justificativa para ameaçá-la, pelo contrário, faça de tudo para que seu carro não represente um risco naquela situação e que a pessoa não seja punida com uma ameaça ou com a morte pelo seu possível erro. Você é o maior responsável por fazer um trânsito seguro, e isso beneficiará a todos nós. Respeite a vida.


Vinícius Reis

O ciclista em Fortaleza ainda é desrespeitado pelos motoristas de ônibus

Respeito Ônibus

Tem sido muito comum recentemente ouvir reclamações de ciclistas sobre o desrespeito praticado por motoristas de ônibus para com eles. As reclamações são sempre as mesmas, os motoristas não dão uma distância segura na hora da ultrapassagem, muitas vezes passando a poucos centímetros das pessoas em bicicletas, ultrapassam em altas velocidades, ficam buzinando e acelerando atrás do ciclista para forçá-lo a se espremer à calçada e poderem ultrapassá-lo… O tempo passa, o tema é discutido mais e mais vezes, mas o desrespeito continua o mesmo.

Por um breve período de tempo (quando inclusive se noticiou amplamente os treinamentos que estavam sendo feitos com motoristas), houve por parte de muitos ciclistas uma sensação de que estava ocorrendo um maior respeito dos motoristas de transporte coletivo em relação às pessoas em bicicletas, principalmente depois do atropelamento de uma ciclista na Avenida Domingos Olímpio, por um motorista que lhe ultrapassou sem dar a distância correta e a derrubou, ficando esta por muito tempo no hospital.

Àquela época a discussão ganhou uma força muito grande e forçou a Etufor a dar uma resposta para a sociedade. Em uma oportunidade, numa entrevista feita no período, o presidente da Etufor afirmou que a cada 2 anos os motoristas passam por um treinamento. O treinamento a que se referiu trata-se de um realizado pelo SEST SENAT com o nome de: “Qualidade do Transporte Urbano de Passageiros – Carteira Padrão”. Tal documento, a “carteira padrão”, conseguida ao final do curso, é uma exigência de Etufor para os motoristas de transporte coletivo, o que é válido e necessário, no entanto, não é realizado por ela. Ainda segundo foi informado, num período de 8 meses mais de 1500 motoristas realizaram esse treinamento obrigatório. O conteúdo do curso possui uma carga horária total de 12 horas e aborda vários temas, dentre eles, o respeito ao ciclista.

Vamos lá, um curso que trata do respeito ao passageiro, de como lidar com pessoas idosas, com mobilidade reduzida e com ciclistas no trânsito, é ministrado uma única vez para turmas que chegam a ter mais de 50 motoristas (o que explica o vultuoso número de motoristas treinados em pouco tempo) num total de 12 horas a cada 2 anos. Cada um desses temas relevantíssimos, incluindo outros temas que envolvem respeito no trânsito são ministrados para dezenas de pessoas num pacotão, para no fim haver um certificado e a Etufor dizer que todos estão treinados, quando for questionada sobre o preparo de seus motoristas profissionais.

Não se vai aqui questionar a qualidade do curso ministrado pelo SEST SENAT nem sobre a importância da citada “Carteira Padrão”, pois, como já dito, é muito válido e necessário qualquer curso que tenha como prioridade aprimorar a qualidade dos motoristas e cobradores de transportes coletivos, mas o que se questionará aqui é sobre a eficiência, sobre os resultados práticos disso, pois, após todas essas informações acima, a preocupação do ciclista só aumenta, pois se antes ele questionava se havia capacitação para o motorista que o ameaça na rua, agora ele tem a certeza de que tem a sua vida ameaçada por um motorista capacitado, um “motorista padrão”.

Estamos no meio de 2016, a declaração do presidente da Etufor já tem quase 8 meses, logo, pelo ritmo em que o curso é ministrado, quase a totalidade dos motoristas de ônibus de Fortaleza, senão todos, já devem ter passado pelo treinamento. E fica um grave questionamento: Quer dizer então que sou desrespeitado por um motorista treinado?! Qual esperança o cidadão fortalezense ou qualquer pessoa de qualquer parte do mundo que for pedalar em Fortaleza poderá ter, se até os motoristas treinados não nos respeitam. Antes a esperança estava no fato de os motoristas ainda não terem sido treinados, então, obviamente, pensava-se que quando eles fossem capacitados tudo mudaria e enfim teríamos um trânsito mais seguro. Mas agora sabemos que, quando formos desrespeitados e questionarmos a Etufor e a Sindiônibus, já receberemos a resposta pronta: “tantos milhares de motoristas foram treinados nos últimos X meses”. Mas e daí? Continuamos sendo desrespeitados da mesma forma. Por isso o questionamento feito algumas linhas acima se repete: Qual a eficiência desse treinamento? Aonde estão os resultados práticos?

Isso quem responde não é nenhum Órgão de transporte, nenhum técnico que avalia e informa orgulhosamente os números de capacitados. Quem responde esse questionamento dos resultados práticos é quem sente na pele o que é um ônibus passando colado ao seu corpo, quem ouve as impacientes buzinadas e aceleradas de motoristas com carteira de profissional mas que preferem ameaçar a vida de um ser humano, assustá-lo, deixar o trânsito hostil, para não perder alguns segundos.

É realmente muito preocupante ouvirmos relatos de ciclistas mulheres que inclusive já tiveram a sua integridade física ameaçada por irem questionar uma fina, uma fechada. Segundo a Sindiônibus cerca de 400 reclamações são realizadas por semana, e apenas 2 são de ciclistas. Não precisa ser nenhum Einstein para saber que obviamente não são somente 2 ciclistas desrespeitados por semana, não são 3, 4, 5, 10, 50, são milhares, quem pedala em uma rua que passa ônibus provavelmente vai ser desrespeitado por no mínimo 1. Muitos ciclistas diariamente são desrespeitados por vários ônibus, que passam em alta velocidade, portanto fica meio difícil pegar o número de identificação do ônibus, a linha, o horário, o local exato do desrespeito, e depois todo dia ligar para fazer uma denúncia e perder em algumas vezes mais de 40 (QUARENTA) minutos para fazer uma única reclamação, isso tudo para TALVEZ o motorista ser identificado e depois de semanas você TALVEZ receber uma ligação, dizendo ou que não foi identificado (muito comum) ou que ele foi identificado e orientado a não agir mais assim. Chega a ser uma piada. Se a Sindiônibus só recebe 2 reclamações de ciclistas por semana, deveria ter percebido que o problema está nela, não no cidadão de bicicleta. Me surpreende que existam 2 pessoas com essa disposição.

Treinamento de motoristas de ônibus não deve ser feito para dar uma resposta pronta, para se ter números grandes para mostrar nas entrevistas, treinamento de motorista profissional que lida com vidas é para ser feito corriqueiramente, não só com panfletos no “Maio Amarelo”, cursos rápidos e resumidos a cada 2 anos ou uma esporádica troca de lugares do motorista virando ciclista por alguns minutos. Deve-se criar um hábito, uma cultura dentro dos profissionais do transporte coletivo de passageiros de que vidas estão nas mãos deles, de que eles devem ser de fato profissionais no trânsito, respeitosos, devem proteger vidas com seus veículos, não ameaçá-las. Treinamentos como o feito recentemente em algumas empresas, colocando motoristas de ônibus numa bicicleta fixada ao chão enquanto um ônibus passava a uma distância inferior a 1,5m, configurando uma fina. Uma situação controlada, com cones, a bicicleta sem risco de queda, mas mesmo assim em seus depoimentos os motoristas relataram o grande medo que tiveram, que inclusive desconheciam.

Treinamentos como esse não podem somente ser realizados de forma esporádica por uma ou outra empresa de ônibus, devem ser constantes e ininterruptamente promovidos pela Etufor e Sindiônibus, acompanhados e cobrados da mesma forma que a “carteira padrão”, e num intervalo menor de tempo, mas não só isso, mesmo que tais treinamentos atinjam a todos os motoristas (existem por volta de 4 mil em Fortaleza, segundo as informações) num intervalo de tempo menor e de forma corriqueira, não somente uma vez isolada para alguns, até esse treinamento cai no esquecimento e o respeito que os motoristas começam a ter vai desaparecendo com a rotina. É necessária essa cultura do respeito, que o motorista seja sempre lembrado disso, e claro, a melhor forma de fazer o motorista respeitar o ciclista é torná-lo também um ciclista, incentivando a ida de bicicleta ao trabalho, fazendo bons bicicletários e bons vestiários no local de trabalho, inclusive presenteando funcionários com bicicletas, auxiliando sua compra, criando o hábito do ciclismo urbano entre eles, para que passem a se ver e a ver seus amigos também como ciclistas, deixando assim o ciclista de ser o outro, o desconhecido, o inimigo no trânsito, para ser também eles mesmos. Assim eles saberão da importância de se respeitar os ciclistas nas ruas, nas avenidas, nos corredores de ônibus, mas na vida real, no meio do trânsito da cidade, não só numa situação simulada e descontraída de um treinamento com técnicos observando. Isso tudo somado ajudará e muito para a construção de um trânsito mais seguro e uma cidade mais humana. A mudança é emergencial, é para ontem. O respeito no trânsito não pode ser algo passageiro, que vem e vai, ele precisa voltar e ficar sempre. A vida agradece.


Vinícius Reis

 

Vá de bicicleta ao aeroporto!

Prefeitura muda prazo para entrega de ciclofaixa da Domingos Olímpio.

Domingos Olímpio

A Prefeitura de Fortaleza deu novo prazo para a execução da ciclofaixa da Avenida Domingos Olímpio, agora será o mês de junho. Originalmente prometida para ser entregue no mês de abril, não foi construída, o que gerou muitas dúvidas sobre a sua real execução, visto que a Prefeitura já prometeu e deixou de cumprir a entrega de ciclofaixas.

Uma ciclofaixa nada mais é do que tinta no asfalto, embora seu significado seja muito mais amplo que esse, portanto, para ser construída não demanda nenhum esforço hercúleo, nem o tempo que as obras rodoviaristas (que têm tido prioridade) levam. Em 3 ou 4 madrugadas se faz tudo, gastando-se muito pouco e com um resultado prático extraordinário, logo, não é admissível que se espere tanto para fazê-las, principalmente quando o clamor popular é grande e compromissos já foram assumidos publicamente.

Porém, o que se viu além da não construção, foram 2 meses sem qualquer tipo de satisfação, algo que seria esperado ainda em março ou até em abril, quando se viu que seria inviável construí-la no prazo prometido (levando-se em consideração que realmente se pretendia, desde o começo, entregar nessa data). Finalmente, no final de maio, quando o burburinho estava recomeçando e as cobranças voltando, foi veiculado para o público o novo mês de conclusão da obra, junho.

Infelizmente esses meses de atraso foram mais meses de milhares de cidadãos fortalezenses correndo riscos naquela movimentada avenida, incontáveis finas, buzinadas, fechadas, xingamentos, de motoristas potenciais assassinos que não sabem dividir a rua. Período também sem qualquer tipo de publicidade educativa no local (não só ali, mas na cidade inteira), mesmo após os atropelamentos e protestos, para divulgar o tão importante respeito no trânsito e a convivência pacífica nas vias.

Vale ressaltar que a cada promessa que é descumprida, mais uma para o rol, a credibilidade do Poder Público cai consideravelmente. Prazo não é algo para ser banalizado, é para ser cumprido, não se pode simplesmente descumpri-lo e dar a si mesmo um novo prazo, assim é muito fácil entregar qualquer obra dentro do prazo, é só mudá-lo. Lembra uma atitude infantil, quando o dono da bola só encerra o jogo depois que está ganhando. A cada dia desse atraso pessoas correrão riscos ali, e será assim até a entrega oficial da obra. Isso deveria inquietar, incomodar profundamente, mas nem todo o risco parece afetar o marasmo da Prefeitura, que convive muito bem com as cobranças naquela e em outras áreas há anos, como se ceder ao clamor popular fosse perder uma queda de braço no qual a população é a maior derrotada.

Muitas pessoas se planejaram, criaram expectativas de começar a pedalar ali, de passar a ter um trajeto mais seguro, tendo assim mais tranquilidade, menos medo, preocupando menos seus familiares e amigos, no entando, na hora “H” o prazo muda. Isso é inaceitável, no mínimo vergonhoso. Se não vai ser possível cumprir o prazo, que se dê um prazo real e razoável de acordo com a realidade, não um prazo para “acalmar os ânimos”. Foi muito conveniente no momento em que eram comuns manifestações naquela região (por conta dos recentes atropelamentos) e cobranças ao Poder Público, estabelecer-se um prazo, prometer-se algo, criar-se um alívio coletivo de que a vida das pessoas teria segurança ali, para agora isso simplesmente ser modificado.

Sentimento de profundo descontentamento com essa notícia, por esse atraso “imprevisto” e essa oportuna “mudança de prazo”. Estrutura cicloviária não é favor, não é bondade, por isso não deve ser tratada como tal, é obrigação, é algo extremamente necessário, é correr atrás de décadas de atraso com a plena consciência de que mesmo se fazendo algo, muito mais precisa ser feito. O que se planeja, o que se promete, deve ser cumprido, de preferência com antecedência, pois se trata da segurança de seres humanos.


Vinícius Reis