A justificativa dos motoristas para matar

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Essa semana muito me comoveu e indignou o RELATO de um amigo que teve sua vida ameaçada por um motorista pela razão mais banal e imbecil possível. Transcrevo aqui uma parte do que ele contou:

“Hoje, por volta das 6h, quando eu trafegava na Rua Carlos Vasconcelos, fora da ciclofaixa (para evitar o relevo que existe no meio dela no cruzamento com a Rua João Carvalho), o motorista desse Corolla se aproximou buzinando enfurecidamente e ao chegar do meu lado ficou me acompanhando e jogando o carro pra cima de mim para que eu fosse para a ciclofaixa. Eu freei e ele passou. Acho que para “descontar” pelo fato de eu estar na rua, ele trafegou pela ciclofaixa por 1 ou 2 quarteirões.

VIOLÊNCIA GRATUITA A TROCO DE NADA! Nesse horário não tem ninguém, não tem trânsito! Não precisava fazer isso que ele fez.” Lucas Landim

Vamos lá. Não tenho dúvidas de que esse motorista reclama da violência da cidade, que nas suas rodas de conversa fala dos perigos e riscos de Fortaleza, deve falar também dos maus motoristas, do trânsito caótico… aquele velho papo de sempre de como as coisas são ruins. Interessante é pensar que assim que ele termina uma conversa como essa, que pega seu carro para ir para casa ou para o trabalho, morrendo de medo de ser assaltado, possivelmente, ele imediatamente e sem perceber se transforma no risco e no perigo que ele tanto reclama e acusa, lembra até aquele clássico episódio do Pateta motorista. Pode ser um bom pai, marido, amigo, doar uma boa quantia para instituições de caridade e ser um grande entusiasta de uma cidade mais segura, com menos medo, mas quando ele assume um volante, faz esse tipo de coisa. Assalta? Não. Trafica? Não. Só acha justo e moralmente certo colocar vidas em risco, caso ache que existe uma justificativa correta para isso.

Ele(a) ameaça vidas se achando no direito de fazê-lo. O fato é que infelizmente ainda vivemos numa sociedade onde muitas pessoas se sentem no direito (e no dever) de ameaçar a vida de outra pessoa quando pensam estar “certas” e a outra “errada”. Quer tirar a prova? Atravesse fora da faixa de pedestres e veja quantos motoristas ao invés de reduzirem a velocidade, acelerarão e virão com o carro para cima de você, e se você não sair da frente esses motoristas simplesmente irão lhe matar. Outra? Pedale fora da ciclofaixa ou ciclovia e veja quantos motoristas irão buzinar, tirar finas propositais e possivelmente até jogar o carro para cima de você, por acharem que lugar de bicicleta não é na rua, principalmente quando existe uma estrutura para bicicletas, que faz algo que esse tipo de motorista considera terrível, um ultraje: tira espaço do carro dele.

Foi o que esse motorista do relato fez, e ainda inovou, dirigindo propositalmente pela ciclofaixa para “dar o troco”, se vingou, e ainda deve ter se sentido o herói da moral, das leis, do correto, mesmo que para isso tenha se tornado um criminoso e um infrator de trânsito cuja pena, se nosso Código de Trânsito fosse seguido, seria a suspensão do direito de dirigir. Essas pessoas, e você com certeza tem amigos próximos assim, parentes e possivelmente até familiares, tem a errônea e até sanguinária percepção de que, quando alguém faz algo que elas consideram errado (mesmo que banal), automaticamente ganham o direito de matá-las ou ameaçá-las, parece que existe um prazer mórbido em dizer: “a culpa foi dele”. As vezes penso que o sonho de muitos de nossos motoristas seria atropelar um pedestre “errado”, aquele que atravessa fora da faixa, que anda fora da calçada, que atravessa sem subir a passarela (obstáculo para pedestres)… Tudo para poder dizer para a polícia, justiça, para a sociedade, a plenos pulmões: “NÃO FOI MINHA CULPA”, um tipo de auto-absolvição, que lhe inocenta e justifica moralmente seu feito.

Mas o curioso nisso tudo também está na falta de humanidade, de respeito ao próximo, da falta de amor à vida, da falta de percepção que aquela pessoa tem mãe, pai, filhos, parentes, amigos, que ficariam arrasados com sua morte, com seus ferimentos, que enquanto esse motorista estivesse contando abertamente que “a culpa foi da pessoa”, uma família estaria destruída, inconformada com a dor de perder para sempre um ente querido, uma pessoa que tinha um futuro pela frente, ou que já tinha feito uma trajetória de vida belíssima, deixando inclusive muitos filhos, até netos, e tudo isso foi perdido, arrancado, simplesmente por que um motorista achou que “estava certo”. E o que é “estar certo”? É ter o direito de matar uma pessoa que se pensa “estar errada”? Você já pensou se para cada vez que alguém julgou você por “estar errado” essa pessoa tentasse te ameaçar ou matar? Sem nem mesmo perguntar seu motivo, sem entender suas razões, e mesmo se você de fato estivesse errado, ainda sim ameaçasse a sua vida pela simples falta de humanidade?

Pois é isso que acontece no nosso trânsito, motoristas que esquecem sua humanidade do lado de fora do carro, que não perdem uma oportunidade de usá-lo como uma “arma da justiça” contra aqueles que sua consciência julga merecerem “aprender uma lição” ou pagar com a morte pelo seu “erro”. O prazer de poder dizer para uma sociedade desumana que “estava certo” é maior do que a compaixão e o respeito pela vida de outro ser humano.

Vivemos numa sociedade tão atrasada que quando as pessoas veem uma notícia de que uma pessoa morreu atropelada fora da faixa, da calçada, da passarela, a reação normal é imediatamente culpabilizá-la, como se ela tivesse merecido aquilo, e que não foi culpa do motorista. No entanto, pensamentos de que aquilo é um absurdo, de que jamais alguém deveria morrer atropelado nas ruas de uma cidade (veja a Visão Zero), de que uma cidade deve ser pensada para as pessoas, de que o motorista deveria ter sido atento, de que se ele estivesse dirigindo numa velocidade segura isso não teria acontecido, de que se ele não tivesse tirado o carro de casa isso não ocorreria, ainda parecem pensamentos utópicos numa realidade tão provinciana e retrógrada como a que vivemos, de pessoas que ainda pensam ser a rua destinada aos carros, e de que eles são soberanos nelas. Devem esquecer de que por milênios as ruas foram das pessoas, e que atropelamento é uma realidade bastante recente, que já está sendo amplamente combatida em países que  não acham um atropelamento algo normal, com Órgão de Trânsito que trabalham sempre para o respeito à vida, países que valorizam mais as pessoas do que os motores.

Isso tudo, essa mentalidade retrógrada, resultam no final numa cena como essa do começo do texto, um motorista, possivelmente um cidadão de bem, vê um ciclista pedalando fora da ciclofaixa e não quer saber o motivo (não importa nem mesmo se tem motivo), não quer saber se ele é casado, se tem família, se tem uma filha que acabou de nascer, se é uma das pessoas que mais contribuíram nos últimos anos para a questão da Mobilidade Urbana em Fortaleza, se é um ser humano como ele e uma vida tão importante quanto a sua, não, isso para ele não é importante. Na sua ânsia assassina e vingativa de fazer o que julga ser o “certo” contra alguém que julga estar “errado” ele ignora todas as leis de trânsito, se esquece que o fato de uma pessoa não fazer o que ele julga “correto” no trânsito não lhe dá qualquer direito legal de ameaçá-lo ou matá-lo e simplesmente comete um crime, esse sim previsto legalmente, comete também uma das maiores infrações de trânsito contidas no Código de Trânsito Brasileiro (Vide Art. 170), punida com a perda da carteira, tudo isso por uma banalidade e ainda pensando estar certo, pensando ter esse direito. Esse  mesmo motorista é o que acelera ou não reduz a velocidade quando vê alguém atravessando fora da faixa (ou na faixa), que joga o carro em cima de um ciclista que pedala na contramão, que acelera quando passa num cruzamento e vê um ciclista cruzando a via no sinal vermelho, essa é a pessoa que é uma potencial assassina, para a qual uma vida não vale nada, cujo “erro” alheio, por mais banal que seja, deve ser punido com uma ameaça, talvez até com a morte.

Se você é esse tipo de motorista, do tipo potencial criminoso de trânsito, aquele que acha que quando “está certo” pode ameaçar alguém que “está errado”, mude, melhore, lembre que uma cidade é um lugar em que as pessoas devem se sentir seguras e você fazendo isso só contribui para deixar a cidade mais hostil e violenta, só contribui para o aumento do sentimento do medo das pessoas, é você o responsável por uma mãe ou um pai terem medo de deixar seus filhos andarem na cidade e serem atropelados, é você que faz um idoso ter medo de caminhar nela, já que sua desatenção ou lentidão podem ser punidas com a morte, é você o responsável por um(a) amigo(a) querer ir de bicicleta para o trabalho mas não o fazer por medo do trânsito. Seu carro é naturalmente um veículo perigoso, não o faça ser ainda mais, daqui pra frente, mesmo quando você vir uma situação em que pense “estar certo” diante de alguém “errado”, não use isso como justificativa para ameaçá-la, pelo contrário, faça de tudo para que seu carro não represente um risco naquela situação e que a pessoa não seja punida com uma ameaça ou com a morte pelo seu possível erro. Você é o maior responsável por fazer um trânsito seguro, e isso beneficiará a todos nós. Respeite a vida.


Vinícius Reis

O ciclista em Fortaleza ainda é desrespeitado pelos motoristas de ônibus

Respeito Ônibus

Tem sido muito comum recentemente ouvir reclamações de ciclistas sobre o desrespeito praticado por motoristas de ônibus para com eles. As reclamações são sempre as mesmas, os motoristas não dão uma distância segura na hora da ultrapassagem, muitas vezes passando a poucos centímetros das pessoas em bicicletas, ultrapassam em altas velocidades, ficam buzinando e acelerando atrás do ciclista para forçá-lo a se espremer à calçada e poderem ultrapassá-lo… O tempo passa, o tema é discutido mais e mais vezes, mas o desrespeito continua o mesmo.

Por um breve período de tempo (quando inclusive se noticiou amplamente os treinamentos que estavam sendo feitos com motoristas), houve por parte de muitos ciclistas uma sensação de que estava ocorrendo um maior respeito dos motoristas de transporte coletivo em relação às pessoas em bicicletas, principalmente depois do atropelamento de uma ciclista na Avenida Domingos Olímpio, por um motorista que lhe ultrapassou sem dar a distância correta e a derrubou, ficando esta por muito tempo no hospital.

Àquela época a discussão ganhou uma força muito grande e forçou a Etufor a dar uma resposta para a sociedade. Em uma oportunidade, numa entrevista feita no período, o presidente da Etufor afirmou que a cada 2 anos os motoristas passam por um treinamento. O treinamento a que se referiu trata-se de um realizado pelo SEST SENAT com o nome de: “Qualidade do Transporte Urbano de Passageiros – Carteira Padrão”. Tal documento, a “carteira padrão”, conseguida ao final do curso, é uma exigência de Etufor para os motoristas de transporte coletivo, o que é válido e necessário, no entanto, não é realizado por ela. Ainda segundo foi informado, num período de 8 meses mais de 1500 motoristas realizaram esse treinamento obrigatório. O conteúdo do curso possui uma carga horária total de 12 horas e aborda vários temas, dentre eles, o respeito ao ciclista.

Vamos lá, um curso que trata do respeito ao passageiro, de como lidar com pessoas idosas, com mobilidade reduzida e com ciclistas no trânsito, é ministrado uma única vez para turmas que chegam a ter mais de 50 motoristas (o que explica o vultuoso número de motoristas treinados em pouco tempo) num total de 12 horas a cada 2 anos. Cada um desses temas relevantíssimos, incluindo outros temas que envolvem respeito no trânsito são ministrados para dezenas de pessoas num pacotão, para no fim haver um certificado e a Etufor dizer que todos estão treinados, quando for questionada sobre o preparo de seus motoristas profissionais.

Não se vai aqui questionar a qualidade do curso ministrado pelo SEST SENAT nem sobre a importância da citada “Carteira Padrão”, pois, como já dito, é muito válido e necessário qualquer curso que tenha como prioridade aprimorar a qualidade dos motoristas e cobradores de transportes coletivos, mas o que se questionará aqui é sobre a eficiência, sobre os resultados práticos disso, pois, após todas essas informações acima, a preocupação do ciclista só aumenta, pois se antes ele questionava se havia capacitação para o motorista que o ameaça na rua, agora ele tem a certeza de que tem a sua vida ameaçada por um motorista capacitado, um “motorista padrão”.

Estamos no meio de 2016, a declaração do presidente da Etufor já tem quase 8 meses, logo, pelo ritmo em que o curso é ministrado, quase a totalidade dos motoristas de ônibus de Fortaleza, senão todos, já devem ter passado pelo treinamento. E fica um grave questionamento: Quer dizer então que sou desrespeitado por um motorista treinado?! Qual esperança o cidadão fortalezense ou qualquer pessoa de qualquer parte do mundo que for pedalar em Fortaleza poderá ter, se até os motoristas treinados não nos respeitam. Antes a esperança estava no fato de os motoristas ainda não terem sido treinados, então, obviamente, pensava-se que quando eles fossem capacitados tudo mudaria e enfim teríamos um trânsito mais seguro. Mas agora sabemos que, quando formos desrespeitados e questionarmos a Etufor e a Sindiônibus, já receberemos a resposta pronta: “tantos milhares de motoristas foram treinados nos últimos X meses”. Mas e daí? Continuamos sendo desrespeitados da mesma forma. Por isso o questionamento feito algumas linhas acima se repete: Qual a eficiência desse treinamento? Aonde estão os resultados práticos?

Isso quem responde não é nenhum Órgão de transporte, nenhum técnico que avalia e informa orgulhosamente os números de capacitados. Quem responde esse questionamento dos resultados práticos é quem sente na pele o que é um ônibus passando colado ao seu corpo, quem ouve as impacientes buzinadas e aceleradas de motoristas com carteira de profissional mas que preferem ameaçar a vida de um ser humano, assustá-lo, deixar o trânsito hostil, para não perder alguns segundos.

É realmente muito preocupante ouvirmos relatos de ciclistas mulheres que inclusive já tiveram a sua integridade física ameaçada por irem questionar uma fina, uma fechada. Segundo a Sindiônibus cerca de 400 reclamações são realizadas por semana, e apenas 2 são de ciclistas. Não precisa ser nenhum Einstein para saber que obviamente não são somente 2 ciclistas desrespeitados por semana, não são 3, 4, 5, 10, 50, são milhares, quem pedala em uma rua que passa ônibus provavelmente vai ser desrespeitado por no mínimo 1. Muitos ciclistas diariamente são desrespeitados por vários ônibus, que passam em alta velocidade, portanto fica meio difícil pegar o número de identificação do ônibus, a linha, o horário, o local exato do desrespeito, e depois todo dia ligar para fazer uma denúncia e perder em algumas vezes mais de 40 (QUARENTA) minutos para fazer uma única reclamação, isso tudo para TALVEZ o motorista ser identificado e depois de semanas você TALVEZ receber uma ligação, dizendo ou que não foi identificado (muito comum) ou que ele foi identificado e orientado a não agir mais assim. Chega a ser uma piada. Se a Sindiônibus só recebe 2 reclamações de ciclistas por semana, deveria ter percebido que o problema está nela, não no cidadão de bicicleta. Me surpreende que existam 2 pessoas com essa disposição.

Treinamento de motoristas de ônibus não deve ser feito para dar uma resposta pronta, para se ter números grandes para mostrar nas entrevistas, treinamento de motorista profissional que lida com vidas é para ser feito corriqueiramente, não só com panfletos no “Maio Amarelo”, cursos rápidos e resumidos a cada 2 anos ou uma esporádica troca de lugares do motorista virando ciclista por alguns minutos. Deve-se criar um hábito, uma cultura dentro dos profissionais do transporte coletivo de passageiros de que vidas estão nas mãos deles, de que eles devem ser de fato profissionais no trânsito, respeitosos, devem proteger vidas com seus veículos, não ameaçá-las. Treinamentos como o feito recentemente em algumas empresas, colocando motoristas de ônibus numa bicicleta fixada ao chão enquanto um ônibus passava a uma distância inferior a 1,5m, configurando uma fina. Uma situação controlada, com cones, a bicicleta sem risco de queda, mas mesmo assim em seus depoimentos os motoristas relataram o grande medo que tiveram, que inclusive desconheciam.

Treinamentos como esse não podem somente ser realizados de forma esporádica por uma ou outra empresa de ônibus, devem ser constantes e ininterruptamente promovidos pela Etufor e Sindiônibus, acompanhados e cobrados da mesma forma que a “carteira padrão”, e num intervalo menor de tempo, mas não só isso, mesmo que tais treinamentos atinjam a todos os motoristas (existem por volta de 4 mil em Fortaleza, segundo as informações) num intervalo de tempo menor e de forma corriqueira, não somente uma vez isolada para alguns, até esse treinamento cai no esquecimento e o respeito que os motoristas começam a ter vai desaparecendo com a rotina. É necessária essa cultura do respeito, que o motorista seja sempre lembrado disso, e claro, a melhor forma de fazer o motorista respeitar o ciclista é torná-lo também um ciclista, incentivando a ida de bicicleta ao trabalho, fazendo bons bicicletários e bons vestiários no local de trabalho, inclusive presenteando funcionários com bicicletas, auxiliando sua compra, criando o hábito do ciclismo urbano entre eles, para que passem a se ver e a ver seus amigos também como ciclistas, deixando assim o ciclista de ser o outro, o desconhecido, o inimigo no trânsito, para ser também eles mesmos. Assim eles saberão da importância de se respeitar os ciclistas nas ruas, nas avenidas, nos corredores de ônibus, mas na vida real, no meio do trânsito da cidade, não só numa situação simulada e descontraída de um treinamento com técnicos observando. Isso tudo somado ajudará e muito para a construção de um trânsito mais seguro e uma cidade mais humana. A mudança é emergencial, é para ontem. O respeito no trânsito não pode ser algo passageiro, que vem e vai, ele precisa voltar e ficar sempre. A vida agradece.


Vinícius Reis

 

Vá de bicicleta ao aeroporto!

Prefeitura muda prazo para entrega de ciclofaixa da Domingos Olímpio.

Domingos Olímpio

A Prefeitura de Fortaleza deu novo prazo para a execução da ciclofaixa da Avenida Domingos Olímpio, agora será o mês de junho. Originalmente prometida para ser entregue no mês de abril, não foi construída, o que gerou muitas dúvidas sobre a sua real execução, visto que a Prefeitura já prometeu e deixou de cumprir a entrega de ciclofaixas.

Uma ciclofaixa nada mais é do que tinta no asfalto, embora seu significado seja muito mais amplo que esse, portanto, para ser construída não demanda nenhum esforço hercúleo, nem o tempo que as obras rodoviaristas (que têm tido prioridade) levam. Em 3 ou 4 madrugadas se faz tudo, gastando-se muito pouco e com um resultado prático extraordinário, logo, não é admissível que se espere tanto para fazê-las, principalmente quando o clamor popular é grande e compromissos já foram assumidos publicamente.

Porém, o que se viu além da não construção, foram 2 meses sem qualquer tipo de satisfação, algo que seria esperado ainda em março ou até em abril, quando se viu que seria inviável construí-la no prazo prometido (levando-se em consideração que realmente se pretendia, desde o começo, entregar nessa data). Finalmente, no final de maio, quando o burburinho estava recomeçando e as cobranças voltando, foi veiculado para o público o novo mês de conclusão da obra, junho.

Infelizmente esses meses de atraso foram mais meses de milhares de cidadãos fortalezenses correndo riscos naquela movimentada avenida, incontáveis finas, buzinadas, fechadas, xingamentos, de motoristas potenciais assassinos que não sabem dividir a rua. Período também sem qualquer tipo de publicidade educativa no local (não só ali, mas na cidade inteira), mesmo após os atropelamentos e protestos, para divulgar o tão importante respeito no trânsito e a convivência pacífica nas vias.

Vale ressaltar que a cada promessa que é descumprida, mais uma para o rol, a credibilidade do Poder Público cai consideravelmente. Prazo não é algo para ser banalizado, é para ser cumprido, não se pode simplesmente descumpri-lo e dar a si mesmo um novo prazo, assim é muito fácil entregar qualquer obra dentro do prazo, é só mudá-lo. Lembra uma atitude infantil, quando o dono da bola só encerra o jogo depois que está ganhando. A cada dia desse atraso pessoas correrão riscos ali, e será assim até a entrega oficial da obra. Isso deveria inquietar, incomodar profundamente, mas nem todo o risco parece afetar o marasmo da Prefeitura, que convive muito bem com as cobranças naquela e em outras áreas há anos, como se ceder ao clamor popular fosse perder uma queda de braço no qual a população é a maior derrotada.

Muitas pessoas se planejaram, criaram expectativas de começar a pedalar ali, de passar a ter um trajeto mais seguro, tendo assim mais tranquilidade, menos medo, preocupando menos seus familiares e amigos, no entando, na hora “H” o prazo muda. Isso é inaceitável, no mínimo vergonhoso. Se não vai ser possível cumprir o prazo, que se dê um prazo real e razoável de acordo com a realidade, não um prazo para “acalmar os ânimos”. Foi muito conveniente no momento em que eram comuns manifestações naquela região (por conta dos recentes atropelamentos) e cobranças ao Poder Público, estabelecer-se um prazo, prometer-se algo, criar-se um alívio coletivo de que a vida das pessoas teria segurança ali, para agora isso simplesmente ser modificado.

Sentimento de profundo descontentamento com essa notícia, por esse atraso “imprevisto” e essa oportuna “mudança de prazo”. Estrutura cicloviária não é favor, não é bondade, por isso não deve ser tratada como tal, é obrigação, é algo extremamente necessário, é correr atrás de décadas de atraso com a plena consciência de que mesmo se fazendo algo, muito mais precisa ser feito. O que se planeja, o que se promete, deve ser cumprido, de preferência com antecedência, pois se trata da segurança de seres humanos.


Vinícius Reis

Para Detran-CE, técnica e condição humana justificam mortes no trânsito

Detran 1

 “É da condição humana”

Questionado sobre sua eficiência em combater as mortes no trânsito, o Detran do Ceará respondeu: as mortes derivam da condição humana. O Estado tem registrado constante aumento na quantidade de mortes no trânsito: 2.091 mortos em 2011, 2.403 em 2012, 2779 em 2013, 3.054 em 2014. Os dados são do próprio Detran-CE.

 

Detran 2

“O sentimento de nacionalidade é adquirido com o respeito às instituições e aos seus integrantes”

A peculiar resposta do Detran não é novidade. Outras respostas igualmente curiosas foram dadas nas redes sociais, como esta acima. Em geral, elas possuem o elemento em comum de eliminar qualquer responsabilidade do órgão, sem apresentar qualquer proposta de ação. O outro elemento é seu caráter pseudofilosófico, que nos faz imaginar um salinha com pessoas refletindo sobre a condição humana e o sentimento de nacionalidade.

A técnica como argumento de autoridade

As respostas desajeitadas do Detran evidenciam o óbvio: a instituição não tem o costume de dialogar com os cidadãos. A falsa tecnocracia, que confere supremacia ao argumento técnico de forma a rejeitar a participação popular, encontra guarita na tradição política autoritária do nosso Ceará. Nossos poderes demonstram imaturidade no trato com o povo – desde a proibição de entrar de bermuda em equipamentos públicos até a realização de eventos falsos de participação popular. E serve – a falsa tecnocracia – para aliviar os responsáveis pelo funcionamento dos poderes públicos: afinal, participação popular dá trabalho e evidencia equívocos e despreparos.
“Técnica” foi um termo amplamente utilizado por Daniel Sucupira, superintendente adjunto do Detran-CE, que representou o órgão em seminário durante o Mês da Mobilidade 2015 realizado pela Ciclovida. Ressalte-se, claro, a sua disposição em participar em uma atividade da sociedade civil – para a qual diversos outros órgãos públicos foram convidados, mas nenhum, fora o Detran-CE, compareceu. Interpretam-se, aqui, os elementos de discurso do órgão, cujo comparecimento em espaços de diálogo demonstra sua disposição em apresentar o que faz, e não em escutar para mudar seus procedimentos.

A técnica como imposição política

Na ocasião, José Otávio, integrante do coletivo Direitos Urbanos, rebateu o argumento técnico: a técnica justifica ideologias. José evidencia que, anteriormente à aplicação da técnica, há uma escolha política da técnica utilizada.
Em uma matéria complexa como mobilidade urbana, que afeta a cidade em seus diversos aspectos e engloba diferentes interesses, a escolha política fica ainda mais evidente. O documentário The End of Suburbia relata como a criação dos subúrbios estadunidenses, afastando os cidadãos do centro urbano e gerando necessidades de longos deslocamentos, foi incentivada pelas empreiteiras, que premiavam os prefeitos que mais construíam rodovias ligando os subúrbios aos centros. Se lá há um descaramento transparente, por aqui a influência empresarial sempre foi feita às escuras, através de financiamento de campanhas eleitorais. No Brasil, empreiteiras lideram ranking de doação privada nas eleições para prefeitos e vereadores.
A devolução deste dinheiro através de viadutos, túneis, passarelas e alargamento de avenidas demonstra que a técnica recusa partipação democrática, mas não recusa dinheiro.

Duas técnicas politicamente possíveis

Os anos 50 foram marcados pela priorização do automóvel. O início da popularização do carro gerou grandes promessas de transformações urbanas com base no deslocamento motorizado. As políticas – e as técnicas – de mobilidade centraram-se neste paradigma por muito tempo, tendo como elementos marcantes a construção de viadutos, túneis, passarelas e alargamento de avenidas. Até que o uso massivo do carro, finalmente, se estabeleceu nas grandes metrópoles.
A popularização – ainda não finalizada – do carro não gerou os resultados pretendidos. A sonhada mobilidade rápida e ilimitada deu lugar a congestionamentos, poluição atmosférica, poluição sonora e, principalmente, crescente número de mortes.
As maléficas consequências do uso do carro foram estudadas por diversas áreas do conhecimento, em especial o urbanismo, resultando em demandas por políticas públicas que, ao contrário do que se fizera até então, priorizasse os modos de deslocamento ativo (a pé, bicicleta) e coletivo (ônibus) sobre os individuais motorizados (carro e moto). A ampliação de calçadas, a implantação de infraestrutura cicloviária e a melhoria no sistema de transporte coletivo não só gerou resultados positivos na redução de mortes no trânsito, como também foram um elemento importante na redução da violência urbana, como aconteceu em Medellín.
Os estudos acadêmicos – técnicos e científicos – não foram suficientes para uma mudança na orientação política dos órgãos públicos, influenciados pela inércia administrativa, senso-comum popular e compromissos eleitorais.
Atualmente, as duas políticas de mobilidade disputam espaço nas cidades brasileiras: a priorização do automóvel, de um lado, e a priorização das pessoas em detrimento do automóvel, do outro. A primeira busca estabelecer a supremacia do carro como se fazia na década de 50, ignorando as consequências desastrosas já conhecidas. A segunda busca humanizar a cidade, estimulando o convívio urbano, democratizando o acesso à cidade e zerando as mortes no trânsito.
Juridicamente, toda obra viária que prioriza automóvel é ilegal, tendo em vista a lei federal 12587/2012. O descumprimento da lei, porém, é albergado pelo desconhecimento sobre a lei e seus fundamentos, tanto na sociedade quanto nos poderes públicos brasileiros.

A escolha política do Estado do Ceará

A Av. Washington Soares, que há muito deveria ter sido municipalizada, demonstra a escolha política do Estado. A qualidade da via é discrepante se compararmos as faixas mistas – por onde passam os automóveis – com as calçadas e a ciclovia. As operações de melhorias são realizadas nas faixas mistas, enquanto a ciclovia é deixada com seus buracos, lixos, areia, irregularidade e falta de drenagem. A travessia pedonal é complicadíssima, tendo em vista a escassez de faixas de pedestres. Lembremos que a via é tipicamente urbana, possuindo universidades, escolas, shoppings, comércio e residências.

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“Técnicos estão avaliando”

Solicitações de faixas de pedestres foram feitas. Na resposta ao protocolo 0671836 acima, o Estado informa que já há uma faixa de pedestres a 200m, e a outros 200m já há uma passarela. O poder público entende que, se você quer atravessar a avenida, você deve andar 400m para que o motorista não tenha que parar e esperar alguns segundos para sua travessia. O Estado ignora que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) permite a travessia quando não houver faixas de pedestres a 50 metros. A própria construção de passarelas é uma forma de criar empecilhos à travessia pedonal – em especial de gestantes, pessoas com crianças de colo, deficientes físicos, idosos – de forma a privilegiar o fluxo motorizado.
A técnica rodoviarista do Estado não sobrevive às suas próprias consequências. A queima de um ônibus na Av. Washington Soares não foi uma resposta apenas a uma morte – que, por si só, já justifica uma revolta popular diante da absurda priorização do fluxo motorizado sobre a vida. Os moradores do entorno da avenida convivem diariamente com as mortes e os riscos de morte impostos pelo Governo para privilegiar o motor.
A ignorância estatal tanto à Lei 12587 quanto ao CTB têm como objetivo a aplicação de uma política rodoviarista, de privilégio ao veículo motorizado, ainda que isso implique em desrespeito à legislação pertinente. É a imposição de uma ideologia, como diz José Otávio, através da tecnocracia: “técnicos estão avaliando”.

Celso Sakuraba, advogado.

Coletivo Ciclanas busca apoio para participar do maior evento de cicloativismo do Brasil

Mulheres, bicicletas e compartilhamento

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Com pouco mais de um ano de existência, o Coletivo Ciclanas – Mulheres de Bicicleta no Trânsito de Fortaleza, grupo de “ciclofeministas” da capital cearense, já tem bastante experiência pra passar pra frente. E elas vão ministrar oficinas e painéis sobre essa militância no Bicicultura, evento que nesse ano ocorre entre os dias 26 e 29 de Maio em São Paulo. A fim de efetivar esse plano, as ciclistas abriram um Catarse, espécie de “vaquinha virtual”, através do qual pretendem arrecadar a quantia de R$1.700,00.

Construído pela sociedade civil e com patrocínios governamentais e privados, o Bicicultura abrigará vários momentos tratando de questões comuns às mulheres que usam a bicicleta como meio de transporte. Além dos paineis e mesas redondas preexistentes na grade de programação, o evento neste ano vai contar com três espaços guiados pelas cicloativistas cearenses, aprovadas por meio de submissão a edital nacional.

Nos dois painéis, serão abordados assuntos como o nascimento e desenvolvimento do coletivo e a cicloviagem realizada para o assentamento Barra do Leme em Pentecostes -CE. Já na oficina sobre as experiências de um movimento social com comunicação em redes sociais, as Ciclanas, além de contar as experiências do coletivo, vão propor um momento de consultoria para aqueles e aquelas que participarem.

O Bicicultura disponibiliza ajuda de custo para palestrantes e oficineiros. No caso das Ciclanas, as passagens aéreas já estão garantidas com esse valor, já a quantia necessária para traslado e deslocamento dependerá de financiamento próprio. Para ajudar, basta acessar o site http://www.catarse.me/ciclanas e doar quantias a partir de R$10,00 . Alguns valores contam inclusive com brindes super bacanas, como packs de adesivos, plaquinhas para bike e até camisetas.

Além das Ciclanas, outras cearenses também vão comandar espaços do Bicicultura; algumas delas também são integrantes do coletivo, que já conta com mais 2 mil membros no grupo fechado do Facebook e uma fanpage pública. A designer e blogueira Nina Tangerina, por exemplo, vai levar seu minidocumentário “Saia Pedalando” sobre assédio no trânsito. Raquel Santos, estudante de artes visuais no IFCE, moradora da Vila Manoel Sátiro e membro do “Mulheres no Graffiti” comporá uma mesa sobre bicicleta e periferia. Já a repórter e vice-presidente da Ciclovida Fortaleza, Kelly Hekally, fala sobre a relação entre cicloativismo e imprensa no último dia de evento.

Lembrando que o prazo para realizar doações está apertado, vai até essa sexta-feira, 20 de maio e ainda falta uma considerável parcela da quantia necessária, por isso toda ajuda é muito bem-vinda e de grande importância. Vamos apoiar esse projeto local, permitir que nossas ciclistas urbanas mostrem para o Brasil inteiro que aqui em Fortaleza também temos projetos bonitos como esse e para que possam ensinar e aprender muito por lá, ajudando assim a  tornar a nossa e outras cidades a cada dia mais humanas e ocupadas.

Para mais informações:

https://www.facebook.com/ciclanas

https://www.catarse.me/ciclanas

https://debikenacidade.com.br/

http://bicicultura.org.br/


Ciclanas – Mulheres no trânsito de Fortaleza

O Uber chegou, mas os ciclistas serão respeitados por eles?

Uber 2

O Uber oficialmente chegou em Fortaleza e já está sendo amplamente divulgado e utilizado por uma sociedade sedenta de opções e concorrência, sedenta por um serviço de qualidade, e o Uber vem com essa interessante e inovadora proposta, de fazer diferente do que tem sido feito até agora no mundo inteiro.

É uma novidade que vem para ficar, para mudar a dinâmica desse tipo de serviço de transporte, que tende a ser positivo para todos. No entanto, como ciclista urbano, minha maior preocupação com o Uber Fortaleza, assim como a de muitas pessoas, é em relação a forma como seus motoristas se comportarão no trânsito. Será que nessas inovações propostas pelo Uber o respeito ao ciclista também está incluído?

O fato é que para nós não adianta somente oferecer água, doces, carregador de celular, revistas, um carro melhor e um preço mais baixo, para o ciclista no trânsito isso é indiferente, o carro do Uber e o carro do táxi são carros, representam o mesmo risco se forem mal utilizados e se seus motoristas não nos respeitarem.

Ciclistas de Fortaleza e do Brasil inteiro costumam ser uníssonos em uma questão: o desrespeito dos motoristas profissionais. Sejam eles motoristas de ônibus, vans, transporte escolar e principalmente taxistas. Somos desrespeitados quase que diariamente por algum taxista, é extremamente comum vermos táxis parados em ciclofaixas para pegar clientes, nos tirarem finas, buzinarem atrás de nós, nos darem fechadas, passarem em sinais vermelhos, fazerem conversões proibidas, tudo isso com um veículo pesado, perigoso e muitas vezes em altas velocidades.

Para nós, mais do que mimos quando formos clientes, queremos ser respeitados quando estivermos compartilhando a rua, essa é uma diferença que nos será notória e nos fará, com a mais absoluta certeza, fãs, admiradores e clientes do Uber.

Felizmente essa é uma característica que pode ser avaliada, portanto, quando você que baixou o aplicativo for utilizar o serviço, seja também um fiscal, nos ajude a ver como eles estão se comportando, se tirarem finas de ciclista, pararem em ciclofaixa, buzinarem para quem estiver na bicicleta sair da frente, derem fechadas ou qualquer atitude hostil, avalie negativamente o motorista, coloque nos comentários a forma como ele lidou com ciclistas e pedestres no trânsito, isso além de incentivá-los a dirigir sempre com responsabilidade, ajudará a criar dentro deles uma cultura de respeito, o que no final, obviamente, lhes renderá muito mais clientes.

Ciclista quando precisa de carro muitas vezes vai solicitar um táxi ou Uber, e quanto mais ciclistas houverem, mais eles tendem a ganhar com isso, mas nós escolheremos aqueles que nos tratarem melhor no trânsito, se todos nos tratarem melhor, todos irão ganhar.


Vinícius Reis