Protesto pela morte do menino Kaic

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Na última sexta-feira, 28/10/16, centenas de pessoas se reuniram no local do homicídio da criança de 12 anos que ia pedalando pela ciclovia da Avenida Godofredo Maciel quando uma Land Rover guiada pela motorista Ana Paula Rodrigues Muniz, ao fazer a conversão na ciclovia, não parou e atropelou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel, arrastando-o por dezenas de metros pela avenida, na frente de sua mãe e de outras testemunhas que presenciaram essa homicídio brutal.

O evento do protesto teve início com a concentração na Praça da Gentilândia, no bairro do Benfica, em Fortaleza. Por volta das 19h centenas de ciclistas saíram rumo ao local do “”acidente””, onde seria realizado o ato em protesto pela morte dele.

No decorrer do longo caminho pudemos ter uma boa mostra de como nosso trânsito é hostil e de como uma enorme parcela dos motoristas são pessoas extremamente agressivas ao volante. Durante o percurso não foram raras as vezes de motoristas querendo ameaçar com seus carros a multidão que pedalava à frente. Muitos motoqueiros também, extremamente hostis ao protesto, tentaram jogar suas motos em cima das pessoas e atravessar na força de seus motores um protesto com centenas de bicicletas.

Nos muitos cruzamentos fechados ao longo da bicicletada de protesto, poucos se solidarizaram com o ocorrido, sendo comum xingamentos e roncos de motores para tentar fazer as pessoas do protesto saírem da frente, afinal de contas, o significado de tudo aquilo e a importância de um ato como aquele não eram mais importantes do que a mesquinhez de muitos desses motoristas.

Passamos por inúmeros bares lotados, com carros estacionados nas calçadas, carros de motoristas que com certeza sairiam dali embriagados e ainda mais inaptos para guiar uma máquina tão perigosa, bares onde fomos muitas vezes hostilizados, ridicularizados, onde muitas pessoas de espírito podre faziam chacota com tudo aquilo, chacota com um protesto feito para uma criança brutalmente morta. Nesses pontos, felizmente a voz das centenas que ali estavam, juntamente com apitos e campainhas das bicicletas foram muito mais fortes, para vaiar aquele tipo de comportamento imundo.

Mas nem tudo foi tão ruim, em muitos pontos também recebemos apoio, de pessoas das janelas de suas casas, calçadas, pessoas que abriam suas portas para ver aquele mar de bicicletas passando em suas pequenas ruas e fazer questão de apoiar o movimento. Um momento raro de união de ciclistas dos mais diversos nichos, desde ciclistas urbanos mais experientes a ciclistas de passeio, ciclistas acostumados com bicicletadas e manifestações e pessoas ainda um pouco tímidas com tudo aquilo, sem dúvidas um intercâmbio valioso, e quem foi para aquela manifestação e ainda tinha uma visão um pouco limitada sobre o ciclismo urbano sem dúvidas teve seus horizontes ampliados.

Ao longo de todo o trajeto uma bicicleta cargueira foi levando a Ghost Bike de Kaic, que seria pendurada no poste em frente ao local que aquela motorista o matou, para que quem passar por ali nunca esqueça que naquele local um assassinato foi cometido.

Mas sem dúvidas, de todas as imagens, incluindo as do momento da fixação da Ghost Bike no poste, da tinta na ciclovia e no asfalto com dizeres de protesto pela morte, além das labaredas dos pneus queimados, chamando a atenção para a grandeza daquele ato de repúdio, apesar de tudo isso, a imagem mais marcante foi a do momento do encontro da bicicletada com as dezenas de crianças do colégio do Kaic que nos esperavam com balões brancos, camisas com fotos dele e cartazes de protesto, crianças e adolescentes puxando vários coros, pulando, protestando com uma vitalidade e simplicidade que nem mesmo aquelas centenas de pessoas de bicicleta foram capazes de realizar. Sem dúvidas uma cena marcante que ficará na memória.

Infelizmente, o saldo que fica após esse protesto é que ainda temos muito, muito o que evoluir, que nossa cidade, mesmo com um avanço na construção de estrutura cicloviária, ainda é destinada quase que exclusivamente aos carros, não às pessoas, e que nossos motoristas, em grande parcela, são pessoas que não deveriam poder guiar máquinas tão perigosas. No entanto essa luta já começou, e por conta dessa luta temos conseguido avanços, hoje uma morte como a do Kaic não passa mais em branco. Já imaginaram se isso fosse há cinco anos? Se hoje uma considerável parcela dos motoristas de Fortaleza sentem empatia com a motorista que matou o menino, imaginem como seria antes, sem toda essa oposição.

Nossa luta diária tem dado resultado, tem incentivado cada vez mais pessoas a pedalarem no dia-a-dia e tornado nossa cidade muito mais humana, dado muito mais senso crítico às pessoas, e isso tende a aumentar ainda mais. Chegaremos ao ponto em que atitudes como as daquelas pessoas podres que nos hostilizaram no protesto serão absolutamente inaceitáveis pela esmagadora maioria, chegará o momento em que será inadmissível pelo senso comum um motorista colocar em risco a vida de uma pessoa de bicicleta no trânsito, chegará o dia em que será considerado seguro, por todos, usar uma bicicleta na cidade, mas até lá precisaremos de muita luta, muita cobrança e do esforço individual de cada um, mas chegaremos lá. Antes diziam que era uma utopia, hoje, com poucos anos de militância, já sabem que é questão de tempo. Vamos diminuir esse tempo.

Confiram as fotos do evento de protesto pela morte do menino Kaic:

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Vinícius Reis

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