Motoristas ainda sentem empatia por quem mata no trânsito

bike-kaic

Foto: Jornal O Povo

Vamos começar esse texto com a definição de empatia pelo dicionário michaelis:

“1 Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.

2 Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.

3 Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura.

[…]”

Essa semana, como muitos já sabem, uma motorista guiando seu Land Rover Discovery 4 de mais de 2,5 toneladas atropelou uma criança que ia pedalando juntamente com sua mãe para a igreja no domingo de manhã. A motorista foi fazer um retorno e simplesmente arrastou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel. A motorista, identificada como Ana Paula Rodrigues Muniz, em depoimento afirmou não ter visto o ocorrido, que só sentiu uma pancada no carro e ainda assim arrancou. Estranhamente, mesmo sem supostamente saber de nada do que aconteceu, já que “só sentiu uma pancada”, se apresentou à polícia como condutora do veículo pouco tempo depois na presença de um advogado.

Vamos lá. Esse texto não tem como objetivo confrontar a versão da motorista, se faz sentido ou não, se é real ou se é só uma estratégia da defesa para tentar safá-la de alguma punição, aproveitando leis ultrapassadas e ineficazes para crimes de trânsito, e um Judiciário que historicamente não tem tratado isso com o devido rigor. Também não tem objetivo de falar de todas as leis do Código de Trânsito Brasileiro que ela transgrediu, da sua falta de atenção ou de que não existem desculpas esfarrapadas nem justificativas mirabolantes que absolvam esse tipo de conduta quando se guia um carro. Para isso teremos outras oportunidades.

Esse texto vem falar especificamente da empatia que muitos (muitos mesmo) motoristas de Fortaleza tiveram com a motorista que causou o homicídio da criança, e não só motoristas, pessoas em geral, que muitas vezes não possuem carro ou CNH, que jamais guiaram um carro na vida e que raramente andam em um, pessoas que sofrem diariamente com o desrespeito de motoristas irresponsáveis, mas que acreditam, por conta de uma sociedade com uma mentalidade arcaica, que os carros possuem sempre a prioridade, e que elas devem fazer de tudo para não atrapalharem um carro, pessoas para as quais não é o carro o vilão que atropela, mas sim as pessoas irresponsáveis que são atropeladas, lembra inclusive um episódio do Chaves, de 1978, quando ele fala que:”Os carros só atropelam os idiotas” (9’35). Em Fortaleza, em 2016, a consciência de parte da coletividade ainda é semelhante.

Nos últimos dias, após todo o alvoroço das notícias iniciais da morte horrenda do menino, começaram os comentários, as conversas, as análises pessoais de cada um sobre o ocorrido, e o que já era esperado infelizmente se confirmou. Pessoas, muitas pessoas, talvez você que lê esse texto e com certeza absoluta pessoas que você conhece, que ao invés de se indignarem com o atropelamento, com a morte da criança, com seu arrastamento pela avenida, começaram a questionar se a culpa de fato não era da mãe da criança, se a culpa, pasmem, não seria da própria criança.

E não se limitou só a esses questionamentos, ao longo da semana, seja nas ruas, seja nas redes sociais, começaram a haver muitos comentários e compartilhamentos de pessoas criticando abertamente a mãe que viu seu filho morrer na sua frente e a criança que morreu. Muitos dizendo que ela era uma irresponsável por estar andando de bicicleta com seu filho, sabendo que “ali passa carro”, como se a culpa fosse da vítima, de ter que prever que ali passam veículos perigosos, e portanto, devesse ficar fora do caminho deles. Não deveriam ser os condutores de carros que deveriam saber que ali passam bicicletas? Ainda mais em uma ciclovia? O que uma pessoa que vai fazer um retorno numa ciclovia acha que vai encontrar? Como pode uma pessoa ser culpada por ser a vítima de uma situação tão absurda? Quer dizer então que se você for assaltado, você é o culpado pois sabe que ali passa ladrão? Uma mulher estuprada é a culpada porque sabe que ali passam estupradores?

Essas pessoas deveriam ter vergonha de si, vergonha de sua mente absolutamente deturpada, de uma consciência completamente desumana, incapaz de se colocar no lugar de uma mãe que estava indo para a igreja, sem fazer absolutamente nada de errado, muito pelo contrário, fazendo algo muito certo, ao ir de bicicleta, pedalando lado-a-lado com seu filho, sem representar risco algum para ninguém, sem colocar 1 único grama de poluição na atmosfera, sem causar poluição sonora, sem colocar a vida de pessoas (como as que fizeram criticas a ela) em risco, fazendo um grande bem para nossa cidade, usando um veículo limpo e humanizador, ocupando as ruas com sua criança, fazendo-o experimentar a cidade, enquanto poderia ter um momento gostoso de conversa, saber como tinha sido a semana dele, jogar conversa fora, reclamar do quarto bagunçado… Essa mãe não é culpada de absolutamente nada, essa mulher e essa criança eram sim responsáveis por tornar nossa cidade um lugar muito melhor de se viver, coisa que motorista algum faz com seu carro, especialmente a que o atropelou. Se essa cidade tivesse mais mães como ela, viveríamos num lugar infinitamente mais humano, mas um raciocínio tão simples como esse parece algo quase utópico na mentalidade neandertal da sociedade que estamos inseridos, uma sociedade do culto ao automóvel, onde o automóvel é tratado como um deus que não erra.

Nesse sentido, da empatia das pessoas para com a motorista, pudemos ver também muitas com uma análise um pouco mais “comedida”, aquelas que não querem criticar, dizem que não querem se posicionar, que não foi bem assim, que temos que esperar (mesmo que até imagens já tenham sido divulgadas e que a própria motorista tenha assumido o homicídio), que só quem pode julgar é Deus… Na verdade, quem diz isso via de regra não passa de um hipócrita, que na realidade não quer “julgar” ou criticar porque sabe que também é motorista, que dirige no dia-a-dia, que vez ou outra tira uma fina ou dá uma fechada em ciclista, que faz conversão em ciclofaixa ou ciclovia sem ver se vem bicicleta, que fazem conversão sem parar o carro para os pedestres passarem, que no fundo sabem que mais dia menos dia podem ser elas numa situação semelhante, e que não gostariam da Lei, da imprensa e da sociedade caindo em cima.

E não só isso, essas pessoas sabem que, mesmo que elas se transformem em excelentes motoristas, seus familiares, parentes, amigos, conhecidos, também são motoristas no dia-a-dia, sabem que muitos deles desrespeitam ciclistas, sabem que há uma chance real de algum deles se envolver em um “”acidente””com bicicleta, e por isso precisam, mesmo que de forma discreta, íntima, lá no fundo da consciência, tentar arranjar alguma justificativa, alguma desculpa, uma forma de sempre a culpa ser do ciclista, ou pelo menos um compartilhamento de culpa, precisam se convencer de que o motorista nessas situações pode sim ser absolvido, pois incomoda pensar que aquela fina, aquela fechada, aquele avanço de preferencial, poderiam ter resultado em uma morte, que elas já poderiam, e ainda podem, matar uma pessoa no trânsito, afinal, guiam um carro. A verdade é que ninguém gosta de pensar que guia uma máquina que pode matar por qualquer descuido, e como esses descuidos frequentemente acontecem por alguma desatenção ou forma irresponsável de dirigir, matar alguém passa a ser uma realidade bem próxima, logo, a culpa não pode ser dela, e sim da vítima, essa sim foi desatenta, essa sim não respeitou, essa sim é inconsequente.

A essa altura o texto já deve estar dando nó no estômago de muitos motoristas, que vão pensar: “Mas os ciclistas também cometem infrações“(leia esse texto), “que o lugar de bicicleta não é na rua”, ou então que “os ciclistas também andam fora das ciclovias“… Na verdade, aqui entre nós, o que você procura é uma justificativa para que matar no trânsito  não seja crime e que essa conduta seja vista como algo “aceitável” pela sociedade. Calma, não estou dizendo que você quer matar alguém, não, estou dizendo que você sabe que a chance disso acontecer é real, que você morre de medo de algum dia, numa dessas suas desatenções, que você bata numa bicicleta, que derrube alguém, e que se isso acontecer você não vai querer ser tratado como um criminoso, não vai querer que a sociedade o veja assim, não irá querer uma foto do seu carro na imprensa, na Rei do Camarote Fortaleza, no Fortaleza de Bike ao Trabalho, no Direitos Urbanos, no Massa Crítica, e claro, não quer uma Carta Aberta como a da Luísa aqui na Prefiro ir de bike. Por isso você tem tanta dificuldade em se identificar com a mãe da criança e com a criança, principalmente se você não anda de bicicleta sozinho, no trânsito do dia-a-dia, se você não tem parentes familiares que pedalam, lembra do começo do texto, da empatia? Pois é. Geralmente nós nos identificamos mais com o que está mais próximo da nossa realidade.

Portanto você, motorista, que está profundamente incomodado de ler esse texto, ler uma verdade que lhe incomoda muito, que provavelmente você já está tentando se convencer de que nada disso é verdade, de que as coisas não são assim, não adianta, você só vai saber disso quando você pedalar no trânsito da cidade, até lá sua visão será extremamente limitada, e você saberá disso no momento que você estiver pedalando no trânsito (não em grupo de pedal). Vá de bicicleta para o trabalho amanhã. Não vai porque tem medo? Medo de que, de você ser o responsável por “se atropelar” ou de ser atropelado por um motorista qualquer? Você, que entra em empatia com motoristas que atropelam no trânsito, talvez não tenha percebido que, se você for atropelado no trânsito, as pessoas que hoje estão juntamente com você se solidarizando com quem atropela, irão continuar se solidarizando com quem o atropelar, já se imaginou, você ou um familiar seu sendo a vítima e várias pessoas colocando a culpa em você ou neles? Gostaria disso? Pois é o que muitos motoristas têm feito, talvez até você.

Fica claro que a tentativa de aliviar a barra de quem pratica crimes de trânsito é uma forma de dar uma garantia, uma segurança para o futuro, porque vai que amanhã seja você. Agora, vamos pensar, será que os que se solidarizam com quem praticou o homicídio ao invés de se   solidarizar com a criança e com a mãe também fariam isso se o menino tivesse levado um tiro de um assaltante enquanto pedalava? Com a mais absoluta certeza que não, mas por quê? Se a criança tivesse sido morta por um “vetim” vocês podem ter certeza que a repercussão e a reprovação social teria sido 100 vezes maior.

Os (As) Motoristas, as chamadas pessoas de bem, que são pais e mães de família, que trabalham… não saem por aí assaltando os outros e dando tiros, logo, se a criança tivesse sido morta dessa forma, aí sim teriam se identificado muito mais com a criança do que com o assaltante, mesmo que o tiro tenha sido acidental, mesmo que o assaltante dissesse que não sabia que a arma estava carregada, ou que pensou que era arma de brinquedo, pois seja de carro, moto, bicicleta ou a pé, todos são passíveis de serem assaltados. Porém, quando entra nos crimes de trânsito a situação já muda, pois eles sabem que atropelar um ciclista é uma possibilidade real para eles, muito mais do que serem atropelados enquanto pedalam, afinal de contas, não pedalam, ou se pedalam, fazem somente em grupos grandes.

E como já dito, essas pessoas também têm amigos, parentes e familiares que dirigem, que tiram finas de ciclistas, que dão fechadas, logo, sabem que existe uma possibilidade bem real disso acontecer na esfera deles, então precisam, mesmo que inconscientemente, se blindar de alguma forma, a chamada “reserva de atropelamento”, que se explica da seguinte forma: Sabem que eles ou pessoas queridas podem atropelar alguém, então é melhor se eximir da culpa, tirar qualquer peso de si e dos outros, já que ninguém quer ser considerado responsável em um atropelamento de ciclista ou pedestre, então é necessário pavimentar um caminho que pode ser trilhado no futuro. É mais fácil fazer isso do que dirigir em velocidade baixa, do que mudar de faixa para ultrapassar a bicicleta, do que olhar para os dois lados e para os retrovisores antes de fazer uma conversão, de deixar a bicicleta ultrapassar antes de fazer a curva, de respeitar uma preferencial…

Imagine agora se fosse você a pessoa morta naquelas circunstâncias, se fosse a sua mãe vendo você morrer daquele jeito, ou você que tem filho, familiares, você vendo essas pessoas morrerem. Agora imagine você vendo essa pessoa sendo arrastada por um SUV enquanto você desesperadamente grita para o motorista parar? E aí, pelo seu senso de moral, você se acharia o errado nessa história em qualquer circunstância? Pois é, será que já não está na hora de rever alguns conceitos?

Você que pensa do jeito do padrão de motorista ilustrado no texto, que ainda coaduna com criminosos de trânsito, pode ter certeza, tão certo quanto o sol amanhã irá nascer, que sua visão sobre isso vai mudar. Talvez não mude porque você será uma pessoa mais humana e consciente por vontade própria, pode até acontecer, e seria bom que fosse assim, mas isso, se ocorrer, pode levar algum tempo. Sua visão sobre isso irá mudar porque pessoas próximas a você irão começar a pedalar na cidade, elas irão começar a vivenciar os desrespeitos que motoristas como você praticam todos os dias nas ruas, vão discutir com pessoas como você, que desrespeita pedestres e ciclistas e ainda acha que está com a razão. Pessoas como você a cada dia que passa ficarão cercadas num mundo isolado, onde o grau de reprovabilidade da conduta de quem atropela ou desrespeita no trânsito será cada vez maior. O cerco está fechando. (Leia esse também).

Apesar de todo o teor consideravelmente crítico do texto, é importante deixar claro que isso não é uma generalização, mas trata sim de uma grande parcela dos motoristas de Fortaleza, e foi escrito especialmente para eles, talvez você seja um deles, mesmo que em parte, talvez não, mas o texto nivela por eles. No entanto, felizmente muitos motoristas estão começando a pedalar e outros tantos possuem mais consciência e sabem que no trânsito seus carros são perigosos e por isso devem sempre guiá-los com o máximo cuidado, sem inventar desculpas, sem justificativas para desrespeitar alguém.

As pessoas precisam aprender que não são motoristas, são pessoas, são seres humanos. Ser motorista não é pertencer a uma classe de pessoas, ser motorista é só ter uma CNH e saber guiar um carro, e boa parte das pessoas que andam de bicicleta são motoristas também, dirigem vez ou outra, logo, são tão motoristas quanto pessoas que se acham membros da “classe dos motoristas”. Você é motorista, é pedestre, é usuário de transporte público, é ciclista, é profissional de alguma área, é fã de alguma banda… Não se deixe levar por empatia como se você por “ser motorista” fosse da mesma “casta” de pessoas que cometem crimes de trânsito, uma “casta superior” na qual muitos motoristas pensam pertencer, só pelo fato de serem motoristas. Você, antes de tudo, é uma pessoa, frágil como aquela criança, portanto, importe-se mais e tenha mais empatia com quem de fato merece. Mas é claro, isso tudo no fim não passa de uma opinião, resta a você a palavra final.


Vinícius Reis

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2 comentários sobre “Motoristas ainda sentem empatia por quem mata no trânsito

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