Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida

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Carta Aberta de autoria de Luísa Pinheiro

Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida essa noite na ciclofaixa da Canuto de Aguiar

Você não deve saber, mas desde há pouco estamos comemorando o Dia Mundial Sem Carro. Tampouco você sabe que dia 31/08 completou um ano desde que eu deixei de ser motorista e virei ciclista em tempo integral. Nesse tempo a minha vida e as minhas percepções mudaram sobremaneira. Na verdade elas já vinham mudando há mais tempo, mas enfrentar o trânsito oferecendo a fragilidade do meu corpo como único escudo todo os dias sedimentou essas mudanças. Mas desconfio que você não se importa.

Se você se importasse, não teria convergido atravessando uma ciclofaixa em tamanha velocidade com um carro tão grande sem ver se havia algum ciclista passando. Por um átimo de segundo eu me vi embaixo do seu carro de mais de duas toneladas. Vi meus planos para o futuro serem esmagados pelo peso da sua pressa. Vi meu filho sem mãe. Minha mãe sem filha. Tive uma crise nervosa quando finalmente parei, depois que a descarga de adrenalina estabilizou e a ficha caiu. Chorei horrores, no meio do supermercado, enquanto tentava manter a normalidade da minha rotina. Ainda não consegui dormir de tão angustiada. Mas você não deve se importar.

Se você se importasse, ao conseguir escapar por uma combinação de sorte e reflexo, mesmo ainda tendo sido colhida de rebarba (até agora há pouco, antes de conseguir tomar banho, ainda tinha as marcas do seu pneu gigantesco no meu joelho esquerdo, como ainda está marcado o aro amassado da minha bicicleta) e te alcançar dois quarteirões depois (porque não importa sua pressa numa cidade onde não cabem mais carros) você não teria me dito cinicamente que eu deveria colocar um pisca alerta pra você poder me enxergar. Eu tinha acabado de te dizer que você quase havia me atropelado, mas você não ligou. Fez pouco caso, debochou, sugeriu que a culpa fosse minha porque, olha só, minha bicicleta não tem algo que é obrigatório apenas para veículos *motorizados*.

De dentro do seu carro caro, com fumê e ar condicionado, alto, acima dos reles mortais, você não liga. Não duvido que você não tenha me visto mesmo, porque gente como você não tem capacidade de enxergar os outros. Pessoas como você são a pior espécie de gente que pode existir nessa cidade. São o motivo de eu tantas vezes pensar em ir embora daqui. Não é o vetim que também anda de bike e rouba celular não. É gente rica escrota. Igual a você. Porque inclusive o vetim só existe porque vocês são assim, podres e ruins. Atropelam tudo e todos, real ou metaforicamente, não se importam com ninguém.

Por não me conhecer, você também não sabe que eu trabalho no IJF. E não sabe que toda semana eu recebo vítimas do trânsito lá. Muitos, ciclistas. A maioria vítimas de atropelamento por pessoas que, como você, não se importam de preservar a vida dos outros. Não tenho estatística formal, é um dado empírico (que eu pretendo transformar em pesquisa acadêmica, agora mais do que nunca) mas em cada dez ciclistas que atendo no plantão, cerca de sete são atropelamentos e não meras quedas. Já tive muitos amigos atropelados. Já soube de outros tantos casos, de mortes e vidas interrompidas pela invalidez. Essa foto chocante que está aí é de uma paciente que operei há alguns meses, atropelada enquanto pedalava. É o resultado direto da irresponsabilidade de motoristas como você. Mas você não se importa.

A você importa sua pressa. Seu status. Sua aparência. O que são vidas diante disso, não é mesmo? Não te conheço, nem sei seu nome ou o que você faz, mas pelo breve encontro que tivemos hoje, eu posso dizer com segurança que, pra mim, você é uma pessoa ruim. Porque alguém que quase mata outra pessoa e, ao saber disso, não se preocupa com a integridade física dela ou em saber se ela está bem mas com a cara mais cínica tenta jogar a culpa pra cima da vítima não pode ser uma pessoa bacana. Não dá.

O que me entristece é saber que você está longe de ser a minoria no trânsito dessa cidade. Que quando acordar, no dia mundial sem carro, eu vou continuar colocando minha vida em risco pela escolha que eu fiz, e da qual não abro mão, de me locomover de um jeito mais racional e humano pelo lugar onde nasci e vivo há 37 anos. Vou continuar sentindo vontade de ir embora quando outra pessoa ruim como você cruzar meu caminho (e, acredite, isso acontece todos os dias. Todos.) porque cansa demais ser resistência num lugar tão hostil. Talvez eu vá um dia. Mas até lá, continuarei vivendo da forma que eu acredito, e não da forma que o medo impetrado pelas pessoas ruins quer me dizer que eu devo. Mesmo que eu pague com a vida.


Luísa Pinheiro, cirurgiã buco-maxilo-facial no Instituto Doutor José Frota (IJF).

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Um comentário sobre “Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida

  1. Muito relevante o que esta Médica escreveu. Isso tinha que ser publicado em jornal prá servir de alerta à nossa Cidade. Gente, estamos bem na curva de uma grave mudança urbana. Quanto tempo ainda vamos esperar até alguns grupos sociais se libertem desse vício provinciano de dirigir carro sem considerar os outros transportes?. Precisamos de Leis mais rígidas, de proteção aos Ciclistas.

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