“Faixa dos carros” não existe

Atualizado em 09/07/16

Vazia

É muito comum, principalmente depois do começo da implantação das ciclofaixas pelas ruas do Brasil, assim como das faixas exclusivas de ônibus, que muitas pessoas quando vão se referir às faixas por onde trafegam os carros as chamem de “faixa dos carros”, algumas delas sem perceber e com a melhor das intenções, outras num discurso carregado de azia ao ver um ônibus ou uma bicicleta trafegando nelas, como se estivessem invadindo a sua “faixa de carro”, sendo comum muitos ciclistas ouvirem os famosos: “vai pra sua faixa” ou então “tem que pedalar onde tem ciclovia”, como se não pudessem pedalar em outros lugares ou como se a vida do ciclista e tudo o que ele precisa fazer se limitasse aos poucos lugares onde tem estrutura cicloviária.

É importante ressaltar que esta terminologia não existe, foi criada e propagada de forma absurdamente errônea, acabando por irradiar e promover, mesmo que não percebamos, um segregacionismo que não deve existir, que muitas vezes  resulta em violência gratuita de motoristas potenciais assassinos, que impacientes por virem alguém em um outro veículo que não seja um carro trafegando em tais faixas, que pela lógica deles não deveriam estar ali, pensam que podem ameaçar a vida dessas pessoas, como se ainda estivessem com razão ao fazer isso, reconfortados pela ideia, ainda compartilhada na sociedade, que atropelamentos ou ameaças nessas circunstâncias são permitidas e até justificáveis, como uma espécie de “educação na marra”, ou o “direito” de usar a força de um veículo pesado contra uma pessoa.

O Código de Trânsito Brasileiro (Lei que rege nosso trânsito e que deveria ser conhecida no mínimo por todos que guiam um veículo motorizado, que é o que tem maiores riscos de provocar mortes, já que possui um motor capaz de gerar força sobre-humana) utiliza a terminologia “Faixas de Trânsito”, que é uma terminologia correta, afinal, todos somos trânsito, seja uma carroça puxada por um burro, uma bicicleta, um pedestre, uma moto, uma Hilux… No entanto, na mentalidade de muitos, fruto de uma sociedade pensada e planejada para os carros, onde os carros possuem preferência, a palavra “Trânsito” remete a carros, e se você não está num carro você não é trânsito,  logo, não deve estar na rua, pois esta é para o trânsito, logo, para os carros.

Obviamente que esta ideia absurda está completamente equivocada, e o próprio Código de Trânsito Brasileiro a desmente em seu primeiro artigo, mostrado a seguir:

“ Art. 1º O trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional, abertas à circulação, rege-se por este Código.

§ 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga.”

Fica claro, comprovado pela Lei que rege nosso trânsito, que “faixa dos carros” é uma expressão inventada, criada para colocar inconscientemente a ideia que a rua, que as faixas, são dos carros, e essa ideia se consolidou ao longo dos anos, e como disse Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista e braço direito de Hitler: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

E essa mentira acaba fazendo com que muitos a queiram tornar verdade nas ruas, ameaçando vidas, colocando seres humanos (e as vezes até animais) em risco, por pura ignorância e raiva gratuita.

Faixas de Trânsito nada mais são do que faixas de uso comum, uso da coletividade, Faixas Mistas. Uma faixa mista, como o nome sugere, é uma faixa que diferentes modais utilizam, e não importa o quão diferentes forem ou em que velocidade estão. Vejamos o que parágrafo segundo do artigo 1º do nosso Código de Trânsito, diz:

“§ 2º O trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito, a estes cabendo, no âmbito das respectivas competências, adotar as medidas destinadas a assegurar esse direito.”

O trânsito, que já vimos na definição acima, é um direito de TODOS, portanto as ruas não são uma exclusividade dos carros, eles somente possuem uma concessão para andar nelas, onde seus condutores devem tomar o máximo cuidado, pois nas ruas, no trânsito, o carro está longe de ser ou de ter a prioridade.

Sendo a rua de todos, as faixas que dela fazem parte são faixas mistas, não “faixas de carros”, como muito se ouve ainda. Precisamos mudar essa triste cultura, que já está enraizada na cabeça das pessoas, de pensar na rua como uma propriedade dos automóveis.

As ruas são das pessoas, o trânsito é formado por pessoas, caminhando, correndo, pedalando, de skate, patins, transporte público, além das que estão dentro dos veículos motorizados particulares, portanto essa divisão não existe. “Faixa de carro” é uma expressão que reflete algo falacioso, uma mentira repetida milhões de vezes, pois as ruas, as faixas ou as vias são coletivas, são mistas, são de todos. O trânsito é feito por pessoas, para pessoas e deve proteger as pessoas, independente da faixa em que estiverem.


Vinícius Reis

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