“Mas os ciclistas também cometem infrações…”

Quando se pede que as pessoas, ao dirigir, pratiquem algumas condutas de segurança no trânsito – como mudar de faixa para ultrapassar alguém em bicicleta –, é comum que apareça alguma pessoa para jogar um suposto “contraponto” totalmente fora de contexto, do tipo “a maioria dos ciclistas comete infrações”. Ainda que fosse verdade, isso não tem muito a ver com o assunto original. Afinal, aquela pessoa de bicicleta na sua frente não tem qualquer relação com as outras pessoas que você viu de bicicleta em outros contextos. Mas por que surgem essas reações sem sentido algum tão corriqueiramente?

Corsa

No contexto da luta do movimento negro nos EUA, eram comuns as alegações do tipo: “mas os negros não se dão o respeito, são imundos, as ruas dos bairros negros são todas sujas”. Isso era colocado como um “contraponto” aos apelos dos negros por respeito aos seus direitos.

Em um determinado programa policial na TV brasileira, um policial abordou um homossexual que estava urinando na calçada durante a Parada Gay e disse “e ainda querem respeito…!”.

Nenhum estadunidense branco diria que os “brancos” não deveriam ter direitos porque algum indivíduo branco não cuida de sua rua. Nenhum heterossexual diria que os heterossexuais não deveriam ter direitos porque existem criminosos heterossexuais. Não existe lógica, na realidade, em suas afirmações. Ambas as afirmações – a do racista e a do homofóbico – têm como origem um medo da perda de privilégios, a dificuldade tremenda de conceber uma situação social que afronte seus preconceitos.

Tanto a inclusão social do negro nos EUA racistas quanto a do homossexual/transexual no Brasil homotransfóbico assustam. É natural que as forças contrárias à obtenção de direitos destes “grupos” sociais lancem mão de argumentos aleatórios e discretamente preconceituosos, mas confortáveis o suficiente para tornar moralmente aceitável o seu preconceito.

Para entender as reações ao apelo por respeito aos direitos de quem está de bicicleta, basta conhecer os fenômenos que já aconteceram na história de outras lutas por direitos. A diferença – que torna tudo ainda mais bizarro – é que pedalar é uma escolha que pode ser praticada por qualquer um. E, na maioria dos casos, é uma solução para o cidadão carrodependente, que fica, diariamente, preso por horas no congestionamento para chegar ao trabalho. Ou seja, quando a tal pessoa reage aos direitos de quem usa a bicicleta, ela está pedindo para ser desrespeitada – e potencialmente assassinada – quando decidir usar a bicicleta. É o preço da estigmatização do veículo, relegado, na história recente, às pessoas mais carentes, que, por sua vez, sofrem o desrespeito de uma sociedade que valoriza mais o bolso que o caráter.


Celso Sakuraba, advogado e diretor da Ciclovida

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2 comentários sobre ““Mas os ciclistas também cometem infrações…”

  1. Isso de se sentir ameaçado ocorre entre os sujeitos privilegiados em todos os contextos das opressões. No machista, a mulher que transa, bebe, usa roupa curta, dança, sai sozinha é culpabilizada pelo estupro, pelo assédio, pela surra… E por aí vai.

    Celso se garante. Uma das minhas fontes de inspiração e de informações no contexto da bicicleta, junto com este blog. Aliás, marquei o Prefiro Ir de Bike no post de hoje. Visite e participe da tag!
    http://www.debikenacidade.com.br

    Um abraço!

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