O cerco está fechando

Atualmente passamos por uma época de mudanças nos conceitos de mobilidade urbana, mudança essa que chega ao Brasil com certo atraso, pois já está presente na Europa há alguns anos, sendo responsável por diversos avanços nesse continente, que é usado como referência por pessoas do mundo inteiro quando o assunto é mobilidade. Países como Holanda, Dinamarca, Alemanha e França têm investido muito principalmente na infraestrutura cicloviária, pois já perceberam e começaram a se beneficiar de todos os benefícios que o uso da bicicleta gera, tanto para a saúde das pessoas, quanto para a saúde do planeta. Cidades como Amsterdam, que eram abarrotadas de carros nos anos 70 e 80, com um número de mortes no trânsito absurdo, hoje são referências mundiais em estrutura ciclística, passaram a colher os frutos disso, do que hoje é muito bem visto por seus cidadãos, que reconhecem o quanto isso foi fundamental para que hoje tais cidades sejam muito mais vivas, bonitas e seguras. Mas como uma mudança tão boa, com tantas referências positivas pelo mundo, pode ser vista como algo negativo por alguém? Por que será que um grande número de pessoas se levanta contra tal mudança, muitas vezes propagando ódio gratuito aos que usam bicicleta como meio de transporte, desde as formas mais simples, como comentários ou postagens ofensivas na internet, até atitudes mais graves, como ameaças e violência no trânsito?

É comum hoje vermos um número crescente de ciclistas nas ruas, das mais variadas classes sociais, desde pessoas mais simples, que utilizam a bicicleta como único meio de transporte possível, até as de classe média, que estão começando a entender os benefícios do uso da magrela e passam a substituir seus carros por elas. Com isso a demanda e a cobrança por estrutura cicloviária, que já era grande, ficam ainda mais crescentes e visíveis, sendo divulgadas em todos os meios de comunicação. Há poucos anos não se viam reportagens sobre ciclismo urbano nos jornais, hoje praticamente toda semana tem alguma matéria relacionada ao assunto de norte a sul do Brasil.

Entretanto, ao mesmo tempo em que isso tem feito o número de ciclistas nas cidades aumentar, de alguma forma também tem despertado a raiva, o ódio de uma parcela da população que por algum motivo que não tem uma explicação lógica e racional passaram a se levantar de forma agressiva e animalesca contra os ciclistas. Talvez uma das razões seja justamente essa, ver o número de pessoas de bicicleta aumentar, batendo de frente com o rodoviarismo provinciano típico de grande parte da sociedade brasileira, que pauta desenvolvimento e modernidade pelo número de carros nas ruas, como se ainda estivéssemos nos anos 50, quando esse pensamento ao menos era compreensível.

Interessante é ver que os mesmos que odeiam os ciclistas, que se unem nas redes sociais, na imprensa, em programas de “talk show” para ridicularizar os usuários da bicicleta ou para propagar ódio às novas estruturas cicloviárias das cidades, quando entram em seus carros, atrás de seus vidros escuros, se odeiam e digladiam  no trânsito, sempre achando que o carro da frente deveria sair da frente pois ele é o problema, e que o trânsito só está congestionado por causa dos carros em volta, não do seu. Vemos que além de tudo são incoerentes, pois propagam o “anti-ciclismo”, no entanto reclamam do trânsito. Dizem que as bicicletas atrapalham o trânsito, mas se esquecem de que uma bike é um carro a menos na rua.

Irregular

Ignorando todas essas questões óbvias, que já serviriam para desconstruir argumentos ridículos de pessoas extremamente retrógradas em seus conceitos, esses gênios (para não dizer o contrário) cospem seu ódio das mais variadas formas, principalmente quando estão com seus carros parados nos congestionamentos bem ao lado de uma ciclovia e veem um ciclista passar sorrindo ao lado dele, fazendo em questão de segundos um trajeto que ele vai levar vários minutos para percorrer, e ainda gastando dinheiro para isso, para um anti-ciclista é algo inadmissível.

O anti-ciclista então, estressado por que fica horas da semana parado num congestionamento depois de um cansativo expediente, vai chamar de vagabundo e desocupado o ciclista que talvez tenha trabalhado o mesmo ou então muito mais que ele. Vai dizer, de forma pouco inteligente e sem nenhum conhecimento sobre o assunto, que os ciclistas são desqualificados, ignorando que os países onde o ciclismo é mais desenvolvido lideram os rankings de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), são os que possuem os melhores sistemas educacionais e que o continente que mais investe em estrutura cicloviária tem mais de 550 prêmios Nobel.

Esse ódio gratuito, essa raiva sem explicação, que tentam buscar justificativas no injustificável, que precisam desmerecer e difamar pessoas honestas para se sustentar, pode ter crescido, mas ao mesmo tempo também atingiu seu ápice, e por não ter nenhuma fundamentação que não seja na mais pura antipatia mesquinha, está prestes a desmoronar, o cerco está se fechando.

O cerco está se fechando a cada dia que a cidade é ocupada por ciclistas, a cada pessoa que escolhe deixar o carro na garagem ou deixar de pegar o transporte público para no lugar usar a bicicleta como meio de transporte, a cada criança que aprende a enxergar a bicicleta como meio de transporte, não só como brincadeira. O cerco se fecha pelo fato de, diferente do anti-ciclista, a bicicleta não fazer acepções, não ter preconceitos, ela é democrática, e pode ser usada por qualquer um, e é aí que complica para o propagador do ódio aos que usam a bicicleta.

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Pelo fato de ser um modal democrático e muito prazeroso, ela atrai os mais variados perfis de pessoas, então o ciclista, que antes era alguém distante do anti-ciclista, da noite para o dia pode ser seu colega do trabalho, que chega com um sorriso no rosto querendo contar a todos sobre sua nova experiência, pode ser seu amigo, que numa saída no final de semana fala da sua “aventura” de pedalar na cidade e que vai começar a fazer isso mais vezes, pode ser o parente, até mesmo o chefe, o cara que paga o salário dele, que agora vai instalar um vestiário e um bicicletário no local de trabalho do anti-ciclista para atender a demanda do crescente número de funcionários ciclistas.

Aquele papo de almoço, de como as ciclofaixas são ruins, de como esses ciclistas são folgados por quererem ter uma estrutura própria que garanta a sua segurança, aqueles textos de pseudo-intelectuais que chamam cicloativistas de cretinos e dizem que sentem saudade de quando uma bicicleta era “apenas uma bicicleta” (tradução eufemística para a saudade de quando um ciclista era alguém esquecido e ignorado pela sociedade e não enchia o saco querendo ter seus direitos respeitados, quando era invisível), tudo isso está com os dias contatos, numa linguagem bem popular, estão vendo a casa cair.

Isso porque os que antes ouviam isso de forma passiva, sem muito conhecimento sobre o assunto, e imaginado que o anti-ciclista estava bem fundamentado para defender tais argumentos com tanta propriedade e cólera, hoje começam a vivenciar o outro lado, vendo como de fato é a vida no trânsito de um “ciclochato”, começando a ter contato com a realidade de alguns motoristas, que dentro de suas bolhas automotivas ameaçam a vida de uma pessoa pelo simples fato de não gostarem daquelas “joças” de duas rodas, esse novo ciclista, que vivencia isso, vai entender assim a necessidade de se haver uma cidade que priorize as pessoas, não os carros, vai entender aquele velho jargão ciclista, “Sua pressa não vale a minha vida”, compreendendo que mais vale um motorista com raiva porque não tem onde parar seu carro, ou porque tem uma faixa a menos para poder congestionar, do que uma pessoa se ferir ou até morrer por conta da falta de uma estrutura cicloviária.

O anti-ciclista vai começar a se visualizar no pior dos cenários para ele, de uma cidade mais viva, mais movimentada de pessoas, com mais espaço para elas e menos espaço para os carros, uma cidade com menos mortes no trânsito, com mais gentilezas urbanas, onde os cidadãos, que antes ficavam isolados dentro de gaiolas, passam a vivenciar sua cidade, ocupar os espaços públicos, aproveitá-la de fato. O ódio aos ciclistas passará a ser visto como algo irracional, inaceitável e injustificável, afinal, se sopesarmos todos os benefícios que o simples uso de uma bicicleta provoca em uma sociedade, chegaremos à conclusão de que não faz sentido algum odiar isso, como foi dito, o cerco está fechando.


Vinícius Reis

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