Faz sentido exigir autorização para pedalar em grupo?

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Recentemente ganhou destaque uma grande polêmica envolvendo uma interpretação da Polícia Rodoviária Federal do Ceará sobre o Art. 174 do CTB, que diz o seguinte:

Art. 174. Promover, NA VIA, competição, eventos organizados, exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo, ou deles participar, como condutor, sem permissão da autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via:

Infração – gravíssima;

Penalidade – multa (dez vezes), suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo; (Redação dada pela Lei nº 12.971, de 2014)

Medida administrativa – recolhimento do documento de habilitação e remoção do veículo.

§ 1o As penalidades são aplicáveis aos promotores e aos condutores participantes. 

§ 2o Aplica-se em dobro a multa prevista no caput em caso de reincidência no período de 12 (doze) meses da infração anterior.

Diante das informações acima, vamos aos fatos. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) começou, de forma bastante questionável, a fazer uma interpretação que antes sequer se ouvia falar, incluindo na parte dos “eventos organizados” do Art.174, ciclistas se deslocando em grupo.

A partir dessa interpretação, que deverá ser estendida ao Detran-CE e AMC, ou seja, será aplicada também dentro de Fortaleza, pode-se fazer uma série de questionamentos, principalmente sobre o que a PRF considera por “eventos organizados”, quantos ciclistas são necessários para se enquadrar nesse tipo de evento e o que definirá esse evento.

Em uma entrevista recente a um canal de televisão local, a PRF afirma o seguinte:

“A partir do momento que essas pessoas se deslocam para um mesmo destino, tendo um objetivo comum, essas pessoas precisam de autorização para estar na rodovia, principalmente para resguardar a vida delas e prevenir a ocorrência de acidentes…”

Certo. Então se 4 trabalhadores que morem próximos uns dos outros e estiverem indo para seu destino de trabalho com esse objetivo comum, eles terão que ter autorização da PRF? E se forem 15 fazendo isso, terão que pedir também? Um ciclista esportivo que acorda cedo todos os dias para treinar com alguns amigos terá que pedir também autorização para todos os dias? Numa cidade com mais de 2,5 milhões de pessoas, inserida numa região metropolitana com mais de 4 milhões de habitantes, quantas pessoas terão que pedir autorização para fazer isso? E quantas autorizações serão necessárias? Como PRF, Detran-CE e AMC vão dar conta disso?

Ademais, isso não vale só para bicicleta, afinal de contas, todos os ciclos são veículos e estarão sujeitos a isso, como skate, patins, patinete, trike bikes… Então aquele rolé de skate vai precisar de autorização, grupos de trike bikes, que são muito comuns em Fortaleza, também precisarão de autorização. Se você quiser pedalar com o(a) companheiro(a) e mais familiares ou amigos, já que terão objetivo comum e irão para um mesmo destino, por essa interpretação precisarão de autorização, até porque seria injusto haver distinções de grupos, e isso causaria mais dúvidas.

Mas você já deve estar achando exagero, né? Pois é, mas calma que está só começando. O artigo 174 do CTB fala em “promover na VIA”, então vamos ao conceito de Via, presente no Anexo I do Código de Trânsito Brasileiro:

VIA – superfície por onde transitam veículos, pessoas e animais, compreendendo a pista, a calçada, o acostamento, ilha e canteiro central.

Por esta interpretação, pessoas que organizarem caminhadas em grupo, com um objetivo comum e indo a um mesmo destino serão multadas em R$3 mil, caso não tenham autorização do órgão de trânsito responsável, afinal, o Art. 174 fala de promover eventos organizados na via, e por esse entendimento organizar uma caminhada na calçada não deixa de ser esse tipo de evento.

Absurdo, não? Mas essa é a interpretação, não dá para colocar só a bicicleta, a lei é bem mais ampla e não trata só da bike, mas possivelmente quem interpretou ela na PRF não deve ter se atentado a esses “detalhes”.

Mas e para os carros, como a PRF fiscaliza pessoas que estão indo em comboio para o interior ou outras partes do litoral, por exemplo? É super comum parentes ou amigos se juntarem e irem viajar juntos, e como não cabe todo mundo dentro de um carro, vão em 3, 4 ou 5 carros com um objetivo comum e para um mesmo destino. Quantas solicitações desse tipo a PRF tem em seus arquivos? Quantas multas já foram aplicadas e quantos carros já foram apreendidos porque se enquadravam na interpretação que a PRF do Ceará está fazendo do Art. 174? Como essa fiscalização é feita? Multar quem está na bicicleta é fácil, identifica-se sem qualquer problema, mas e nos carros, como se faz? A interpretação da lei deve ser a mesma.

Reparem que na entrevista dada pela PRF, se fala em “prevenir acidentes”, “resguardar a vida das pessoas” e “trazer para as pessoas a necessidade da segurança”… Ok, mas de quem é a responsabilidade pela segurança? De quem sofre o desrespeito ou de quem o pratica? O próprio CTB é bem claro em seu Art. 29, §2º, ao dizer que:

“Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:

[…]

§ 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.”

Deve-se garantir a segurança das pessoas fiscalizando e punindo quem causa a insegurança, e não o contrário, seria como multar uma mulher que saiu de saia porque ela não pediu autorização e estava sujeita a sofrer assédio. E de igual maneira, por mais que se tenha falado amplamente de bicicleta, essa lei deve valer para carros, motos e qualquer tipo de veículo, o que parece insustentável.

Mas por que esse artigo não faz o menor sentido para pessoas pedalando em grupo, para organizadores de caminhadas ou corridas, para skatistas andando em grupo, para motoristas dirigindo em grupo (como para uma viagem ou para o sítio de alguém, por exemplo)? Porque ele claramente não foi feito com esse objetivo. Por isso conseguimos fazer, baseados na lei e nessa interpretação equivocada, as hipóteses mais loucas possíveis, pois de acordo com essa interpretação, isso é sim uma possibilidade, a não ser que se criem novas centenas de leis regulando cada tipo de situação possível, por mais absurda que seja, e ainda assim teremos brechas, confusões de interpretação e alguém vai ser injustiçado.

Vemos o absurdo desse tipo de interpretação pelo fato do artigo 174 do CTB estar inserido num grupo de 3 artigos que evidenciam que ele não passa nem perto de pessoas pedalando em grupo. O Art. 173 trata especificamente de “Disputar Corrida”, já o Art. 175 trata de usar o veículo para “demonstrar ou exibir manobra perigosa, mediante arrancada brusca, derrapagem, frenagem com deslizamento ou arrastamento de pneus…”

E aí, você acha que esses dois artigos se referem a crianças e adolescentes que ficam brincando de corrida, derrapando com a bicicleta e se exibindo para os amigos pedalando sem as mãos na rua onde moram ou se referem a rachas de motos e carros?

No meio deles, está o art. 174, que os complementa falando de “promover, na via, competição, eventos organizados, exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo…”. Você acha que trata de grupos de pedal noturno, de pessoas indo em grupos de bicicleta para o trabalho, de ciclistas esportivos que treinam diariamente em pelotões ou que foi feita para evitar que nossas ruas virem o “Need for Speed” ou o “Velozes e Furiosos”?

Mais uma demonstração clara de que essa lei não foi feita pensando em bicicletas ou ciclos em geral, é a parte que trata das punições em TODOS os 3 artigos mencionados (173, 174 e 175) do CTB. Nos 3, parte da penalidade determinada é a SUSPENSÃO DO DIREITO DE DIRIGIR e o RECOLHIMENTO DO DOCUMENTO DE HABILITAÇÃO. Você pode ter suspenso o direito de “dirigir” sua bicicleta ou sua trike bike? Você pode ter recolhida sua habilitação para conduzir sua bicicleta ou seu skate? Nada disso se aplica à bicicleta, não é mesmo? Pois é, por esses e outros motivos que ciclistas do Brasil inteiro ficaram indignados com o ocorrido e com essa interpretação mais do que equivocada de um artigo do Código de Trânsito Brasileiro, que de forma evidente e bastante óbvia não foi feito em nenhum momento pensando em pessoas que pedalam em grupos, muito, muito longe disso.

É lamentável que uma instituição tão antiga, admirada e respeitada pelos brasileiros como a PRF esteja tratando o artigo 174 do CTB de forma a incluir pessoas em bicicletas, o que inclusive é extremamente perigoso para o restante do Brasil, caso isso comece a acontecer também em outros estados. Acompanhemos o desenrolar desse caso, para que nenhum absurdo seja cometido, pois os danos podem ser bastante elevados, como a burocratização e a marginalização do ato de pedalar em grupo e do que for considerado grupo.


Vinícius Reis

Que em 2017 haja mais respeito e menos ameaças aos ciclistas

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2016 foi um ano de altos e baixos para as pessoas que utilizam bicicleta em Fortaleza. Tivemos algumas conquistas importantes, como a ciclofaixa da Avenida Domingos Olímpio, que era uma necessidade antiga e que finalmente ficou pronta, já nascendo (atrasada) como uma das estruturas cicloviárias mais utilizadas da cidade, permitindo que muitas pessoas passassem a usar a bike como veículo, pois precisavam passar naquela avenida e antes tinham medo, inclusive por conta dos frequentes atropelamentos de ciclistas, tratados com o típico descaso do Poder Público.

Também conquistamos novos e importantes quilômetros de estrutura cicloviária distribuídos pela cidade, o que aos poucos vem mudando a cara de Fortaleza, fazendo a bicicleta sair da invisibilidade social na qual esteve durante décadas para ocupar um lugar de destaque cada vez maior na sociedade, mesmo que ainda haja muito (muito mesmo) a evoluir.

No entanto, apesar de ter sido um ano de consolidação de conquistas para a bicicleta como veículo na cidade, foi um ano que se destaca pelo elevado desrespeito das pessoas que guiam carros contra as pessoas que guiam bicicletas. Pessoas que muitas vezes, quando estão dentro de um carro, deixam o respeito e a educação do lado de fora e viram potenciais assassinas atrás de um volante.

Prova disso foram os vários os atropelamentos, ferimentos e mortes causados por essas pessoas guiando carros, por puro desrespeito e irresponsabilidade. Algo que sempre aconteceu, mas que devido à invisibilidade social da bicicleta sempre foi ignorado, tratado como acidente, fatalidade, e claro, como culpa do ciclista. Essa invisibilidade tem mudado nos últimos anos, a bicicleta tem sido cada vez mais presente na cidade e as campanhas de respeito ao ciclista certamente já são de conhecimento de toda a população há bastante tempo, especialmente nos últimos anos, porém, nem isso evitou que em pleno 2016 ainda tenha sido extremamente corriqueiro o ciclista ter sua vida ameaçada por motoristas irresponsáveis, que têm plena consciência do que devem fazer para respeitar quem está na bike, mas não fazem.

Daí podemos ver a origem das milhões de finas e fechadas levadas pelos ciclistas de Fortaleza esse ano, e também dos motoristas que param ou estacionam em ciclofaixas, dos que avançam preferenciais, dos que abrem a porta sem olhar pelo retrovisor, dos que buzinam e jogam luz alta quando veem um ciclista na frente, e dos que atropelam, ferem e até matam, e que a imprensa local ainda insiste em chamar de “acidente”.

Atropelamentos esses que em 2016 foram bastante frequentes, tendo alguns casos ganhado destaque, a exemplo da ciclista atropelada por uma motorista guiando um Troller que ainda saiu sem prestar socorro (e ainda tentou pateticamente colocar a culpa na ciclista, claro), também o caso do famoso ciclista Xuxa, que ao desviar de um buraco do asfalto lunar de Fortaleza acabou sendo atropelado por um motorista de ônibus que não deveria estar fazer ultrapassagem naquele trecho, mas sim deveria ter esperado atrás dele até o momento que fosse possível fazer uma ultrapassagem segura (algo que deveria ser o procedimento de qualquer motorista, especialmente um profissional guiando um ônibus).

E tivemos, talvez como símbolo maior de todo o desrespeito presente nas nossas ruas, o caso no menino Kaic, de 12 anos, que foi atropelado e arrastado de dentro de uma ciclovia num domingo de manhã enquanto ia para a igreja com sua mãe. A motorista, guiando sua Land Rover, disse “não ter visto” que vinha uma bicicleta, e mesmo após o impacto, que se tivesse cessado ali não teria gerado grandes danos, arrancou com seu SUV arrastando a criança até a morte pelo asfalto da avenida. Infelizmente, mesmo após toda comoção e destaque gerado por esse assassinato, ainda assim houveram mais ciclistas mortos em 2016, vítimas de motoristas irresponsáveis que se tornaram assassinos.

Por tudo isso vemos que 2016, apesar dos avanços, foi um ano bastante difícil para as pessoas que pedalam nessa cidade, tudo por conta do desrespeito de outras pessoas, que se transformam em sujeitos violentos quando estão guiando carros.

Torcemos que 2017 seja um ano de mais respeito à vida no trânsito, que nossos motoristas entendam que eles representam a maior parte dos perigos que temos nas ruas, e que por essa razão devem sempre tomar o máximo de cuidado quando estiverem guiando seus carros.

Nesse ano que virá nossas vias serão ainda mais ocupadas por bicicletas, ainda mais pessoas deixarão seus carros em casa para usarem a bike como veículo, nossas ruas ficarão mais vivas, e isso acarretará, como numa progressão geométrica, uma cidade ainda mais viva e ocupada, só precisamos que o desrespeito dos motoristas não atrapalhe isso, precisamos que em 2017 respeitem a vida das pessoas, algo extremamente simples, mas que não fizeram em 2016, assim sem dúvida alguma teremos um ano muito melhor.


Vinícius Reis

Passou um FNEBici por Fortaleza

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E aconteceu! Meses de preparação, muito empenho de todos os envolvidos pela realização do evento, participantes organizadores e convidados de todas as regiões do Brasil, além de centenas de pessoas daqui de Fortaleza que compareceram, foram os responsáveis por fazer um dos maiores eventos de ciclomobilidade do país ter sido absolutamente fantástico.

Entre dos dias 11 e 14 de novembro (alguns participantes sortudos de fora ficaram mais dias na cidade) Fortaleza foi vitrine para o Brasil no que diz respeito a mobilidade por bicicletas. Aqui estiveram integrantes de várias organizações cicloativistas do Nordeste e cicloativistas de todo o Brasil, trocando e produzindo conhecimentos nas diversas programações do Fórum.

Temas como o respeito ao ciclista, a importância da estrutura cicloviária, empreendedorismo e bicicleta, questões relativas à realidade das mulheres que pedalam, como assédio e preconceito, preconceito contra o próprio ato de pedalar, apresentação de artigos, exposição de dados sobre algumas cidades do Nordeste… enfim, diversos assuntos que enriqueceram muito o FNEBici e geraram grandes palestras e debates.

Durante os dias do evento também os participantes de outros estados, que ficaram instalados em diferentes regiões da cidade, puderam conhecer um pouco da realidade de Fortaleza, sendo uma das maiores críticas a falta de respeito dos motoristas fortalezenses e a alta velocidade com que guiam seus carros.

Durante o Fórum houve votação para a escolha da próxima cidade sede, para o FNEBici 2018, tendo sido escolhida Maceió, em apertada vitória sobre João Pessoa.

Ao final de tudo o que ficou foi um grande aprendizado e lembranças memoráveis dos dias do evento, novas amizades e a vontade de ir ao próximo FNEBici, uma grande realização das organizações cicloativistas do Nordeste que irá ajudar a fortalecer muito a ciclomobilidade nas cidades nordestinas. Bike é possível!

Fotos:

 


Vinícius Reis

Protesto pela morte do menino Kaic

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Na última sexta-feira, 28/10/16, centenas de pessoas se reuniram no local do homicídio da criança de 12 anos que ia pedalando pela ciclovia da Avenida Godofredo Maciel quando uma Land Rover guiada pela motorista Ana Paula Rodrigues Muniz, ao fazer a conversão na ciclovia, não parou e atropelou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel, arrastando-o por dezenas de metros pela avenida, na frente de sua mãe e de outras testemunhas que presenciaram essa homicídio brutal.

O evento do protesto teve início com a concentração na Praça da Gentilândia, no bairro do Benfica, em Fortaleza. Por volta das 19h centenas de ciclistas saíram rumo ao local do “”acidente””, onde seria realizado o ato em protesto pela morte dele.

No decorrer do longo caminho pudemos ter uma boa mostra de como nosso trânsito é hostil e de como uma enorme parcela dos motoristas são pessoas extremamente agressivas ao volante. Durante o percurso não foram raras as vezes de motoristas querendo ameaçar com seus carros a multidão que pedalava à frente. Muitos motoqueiros também, extremamente hostis ao protesto, tentaram jogar suas motos em cima das pessoas e atravessar na força de seus motores um protesto com centenas de bicicletas.

Nos muitos cruzamentos fechados ao longo da bicicletada de protesto, poucos se solidarizaram com o ocorrido, sendo comum xingamentos e roncos de motores para tentar fazer as pessoas do protesto saírem da frente, afinal de contas, o significado de tudo aquilo e a importância de um ato como aquele não eram mais importantes do que a mesquinhez de muitos desses motoristas.

Passamos por inúmeros bares lotados, com carros estacionados nas calçadas, carros de motoristas que com certeza sairiam dali embriagados e ainda mais inaptos para guiar uma máquina tão perigosa, bares onde fomos muitas vezes hostilizados, ridicularizados, onde muitas pessoas de espírito podre faziam chacota com tudo aquilo, chacota com um protesto feito para uma criança brutalmente morta. Nesses pontos, felizmente a voz das centenas que ali estavam, juntamente com apitos e campainhas das bicicletas foram muito mais fortes, para vaiar aquele tipo de comportamento imundo.

Mas nem tudo foi tão ruim, em muitos pontos também recebemos apoio, de pessoas das janelas de suas casas, calçadas, pessoas que abriam suas portas para ver aquele mar de bicicletas passando em suas pequenas ruas e fazer questão de apoiar o movimento. Um momento raro de união de ciclistas dos mais diversos nichos, desde ciclistas urbanos mais experientes a ciclistas de passeio, ciclistas acostumados com bicicletadas e manifestações e pessoas ainda um pouco tímidas com tudo aquilo, sem dúvidas um intercâmbio valioso, e quem foi para aquela manifestação e ainda tinha uma visão um pouco limitada sobre o ciclismo urbano sem dúvidas teve seus horizontes ampliados.

Ao longo de todo o trajeto uma bicicleta cargueira foi levando a Ghost Bike de Kaic, que seria pendurada no poste em frente ao local que aquela motorista o matou, para que quem passar por ali nunca esqueça que naquele local um assassinato foi cometido.

Mas sem dúvidas, de todas as imagens, incluindo as do momento da fixação da Ghost Bike no poste, da tinta na ciclovia e no asfalto com dizeres de protesto pela morte, além das labaredas dos pneus queimados, chamando a atenção para a grandeza daquele ato de repúdio, apesar de tudo isso, a imagem mais marcante foi a do momento do encontro da bicicletada com as dezenas de crianças do colégio do Kaic que nos esperavam com balões brancos, camisas com fotos dele e cartazes de protesto, crianças e adolescentes puxando vários coros, pulando, protestando com uma vitalidade e simplicidade que nem mesmo aquelas centenas de pessoas de bicicleta foram capazes de realizar. Sem dúvidas uma cena marcante que ficará na memória.

Infelizmente, o saldo que fica após esse protesto é que ainda temos muito, muito o que evoluir, que nossa cidade, mesmo com um avanço na construção de estrutura cicloviária, ainda é destinada quase que exclusivamente aos carros, não às pessoas, e que nossos motoristas, em grande parcela, são pessoas que não deveriam poder guiar máquinas tão perigosas. No entanto essa luta já começou, e por conta dessa luta temos conseguido avanços, hoje uma morte como a do Kaic não passa mais em branco. Já imaginaram se isso fosse há cinco anos? Se hoje uma considerável parcela dos motoristas de Fortaleza sentem empatia com a motorista que matou o menino, imaginem como seria antes, sem toda essa oposição.

Nossa luta diária tem dado resultado, tem incentivado cada vez mais pessoas a pedalarem no dia-a-dia e tornado nossa cidade muito mais humana, dado muito mais senso crítico às pessoas, e isso tende a aumentar ainda mais. Chegaremos ao ponto em que atitudes como as daquelas pessoas podres que nos hostilizaram no protesto serão absolutamente inaceitáveis pela esmagadora maioria, chegará o momento em que será inadmissível pelo senso comum um motorista colocar em risco a vida de uma pessoa de bicicleta no trânsito, chegará o dia em que será considerado seguro, por todos, usar uma bicicleta na cidade, mas até lá precisaremos de muita luta, muita cobrança e do esforço individual de cada um, mas chegaremos lá. Antes diziam que era uma utopia, hoje, com poucos anos de militância, já sabem que é questão de tempo. Vamos diminuir esse tempo.

Confiram as fotos do evento de protesto pela morte do menino Kaic:

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Vinícius Reis

Motoristas ainda sentem empatia por quem mata no trânsito

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Foto: Jornal O Povo

Vamos começar esse texto com a definição de empatia pelo dicionário michaelis:

“1 Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.

2 Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.

3 Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura.

[…]”

Essa semana, como muitos já sabem, uma motorista guiando seu Land Rover Discovery 4 de mais de 2,5 toneladas atropelou uma criança que ia pedalando juntamente com sua mãe para a igreja no domingo de manhã. A motorista foi fazer um retorno e simplesmente arrastou o menino Kaic Roniele de Sousa Gurgel. A motorista, identificada como Ana Paula Rodrigues Muniz, em depoimento afirmou não ter visto o ocorrido, que só sentiu uma pancada no carro e ainda assim arrancou. Estranhamente, mesmo sem supostamente saber de nada do que aconteceu, já que “só sentiu uma pancada”, se apresentou à polícia como condutora do veículo pouco tempo depois na presença de um advogado.

Vamos lá. Esse texto não tem como objetivo confrontar a versão da motorista, se faz sentido ou não, se é real ou se é só uma estratégia da defesa para tentar safá-la de alguma punição, aproveitando leis ultrapassadas e ineficazes para crimes de trânsito, e um Judiciário que historicamente não tem tratado isso com o devido rigor. Também não tem objetivo de falar de todas as leis do Código de Trânsito Brasileiro que ela transgrediu, da sua falta de atenção ou de que não existem desculpas esfarrapadas nem justificativas mirabolantes que absolvam esse tipo de conduta quando se guia um carro. Para isso teremos outras oportunidades.

Esse texto vem falar especificamente da empatia que muitos (muitos mesmo) motoristas de Fortaleza tiveram com a motorista que causou o homicídio da criança, e não só motoristas, pessoas em geral, que muitas vezes não possuem carro ou CNH, que jamais guiaram um carro na vida e que raramente andam em um, pessoas que sofrem diariamente com o desrespeito de motoristas irresponsáveis, mas que acreditam, por conta de uma sociedade com uma mentalidade arcaica, que os carros possuem sempre a prioridade, e que elas devem fazer de tudo para não atrapalharem um carro, pessoas para as quais não é o carro o vilão que atropela, mas sim as pessoas irresponsáveis que são atropeladas, lembra inclusive um episódio do Chaves, de 1978, quando ele fala que:”Os carros só atropelam os idiotas” (9’35). Em Fortaleza, em 2016, a consciência de parte da coletividade ainda é semelhante.

Nos últimos dias, após todo o alvoroço das notícias iniciais da morte horrenda do menino, começaram os comentários, as conversas, as análises pessoais de cada um sobre o ocorrido, e o que já era esperado infelizmente se confirmou. Pessoas, muitas pessoas, talvez você que lê esse texto e com certeza absoluta pessoas que você conhece, que ao invés de se indignarem com o atropelamento, com a morte da criança, com seu arrastamento pela avenida, começaram a questionar se a culpa de fato não era da mãe da criança, se a culpa, pasmem, não seria da própria criança.

E não se limitou só a esses questionamentos, ao longo da semana, seja nas ruas, seja nas redes sociais, começaram a haver muitos comentários e compartilhamentos de pessoas criticando abertamente a mãe que viu seu filho morrer na sua frente e a criança que morreu. Muitos dizendo que ela era uma irresponsável por estar andando de bicicleta com seu filho, sabendo que “ali passa carro”, como se a culpa fosse da vítima, de ter que prever que ali passam veículos perigosos, e portanto, devesse ficar fora do caminho deles. Não deveriam ser os condutores de carros que deveriam saber que ali passam bicicletas? Ainda mais em uma ciclovia? O que uma pessoa que vai fazer um retorno numa ciclovia acha que vai encontrar? Como pode uma pessoa ser culpada por ser a vítima de uma situação tão absurda? Quer dizer então que se você for assaltado, você é o culpado pois sabe que ali passa ladrão? Uma mulher estuprada é a culpada porque sabe que ali passam estupradores?

Essas pessoas deveriam ter vergonha de si, vergonha de sua mente absolutamente deturpada, de uma consciência completamente desumana, incapaz de se colocar no lugar de uma mãe que estava indo para a igreja, sem fazer absolutamente nada de errado, muito pelo contrário, fazendo algo muito certo, ao ir de bicicleta, pedalando lado-a-lado com seu filho, sem representar risco algum para ninguém, sem colocar 1 único grama de poluição na atmosfera, sem causar poluição sonora, sem colocar a vida de pessoas (como as que fizeram criticas a ela) em risco, fazendo um grande bem para nossa cidade, usando um veículo limpo e humanizador, ocupando as ruas com sua criança, fazendo-o experimentar a cidade, enquanto poderia ter um momento gostoso de conversa, saber como tinha sido a semana dele, jogar conversa fora, reclamar do quarto bagunçado… Essa mãe não é culpada de absolutamente nada, essa mulher e essa criança eram sim responsáveis por tornar nossa cidade um lugar muito melhor de se viver, coisa que motorista algum faz com seu carro, especialmente a que o atropelou. Se essa cidade tivesse mais mães como ela, viveríamos num lugar infinitamente mais humano, mas um raciocínio tão simples como esse parece algo quase utópico na mentalidade neandertal da sociedade que estamos inseridos, uma sociedade do culto ao automóvel, onde o automóvel é tratado como um deus que não erra.

Nesse sentido, da empatia das pessoas para com a motorista, pudemos ver também muitas com uma análise um pouco mais “comedida”, aquelas que não querem criticar, dizem que não querem se posicionar, que não foi bem assim, que temos que esperar (mesmo que até imagens já tenham sido divulgadas e que a própria motorista tenha assumido o homicídio), que só quem pode julgar é Deus… Na verdade, quem diz isso via de regra não passa de um hipócrita, que na realidade não quer “julgar” ou criticar porque sabe que também é motorista, que dirige no dia-a-dia, que vez ou outra tira uma fina ou dá uma fechada em ciclista, que faz conversão em ciclofaixa ou ciclovia sem ver se vem bicicleta, que fazem conversão sem parar o carro para os pedestres passarem, que no fundo sabem que mais dia menos dia podem ser elas numa situação semelhante, e que não gostariam da Lei, da imprensa e da sociedade caindo em cima.

E não só isso, essas pessoas sabem que, mesmo que elas se transformem em excelentes motoristas, seus familiares, parentes, amigos, conhecidos, também são motoristas no dia-a-dia, sabem que muitos deles desrespeitam ciclistas, sabem que há uma chance real de algum deles se envolver em um “”acidente””com bicicleta, e por isso precisam, mesmo que de forma discreta, íntima, lá no fundo da consciência, tentar arranjar alguma justificativa, alguma desculpa, uma forma de sempre a culpa ser do ciclista, ou pelo menos um compartilhamento de culpa, precisam se convencer de que o motorista nessas situações pode sim ser absolvido, pois incomoda pensar que aquela fina, aquela fechada, aquele avanço de preferencial, poderiam ter resultado em uma morte, que elas já poderiam, e ainda podem, matar uma pessoa no trânsito, afinal, guiam um carro. A verdade é que ninguém gosta de pensar que guia uma máquina que pode matar por qualquer descuido, e como esses descuidos frequentemente acontecem por alguma desatenção ou forma irresponsável de dirigir, matar alguém passa a ser uma realidade bem próxima, logo, a culpa não pode ser dela, e sim da vítima, essa sim foi desatenta, essa sim não respeitou, essa sim é inconsequente.

A essa altura o texto já deve estar dando nó no estômago de muitos motoristas, que vão pensar: “Mas os ciclistas também cometem infrações“(leia esse texto), “que o lugar de bicicleta não é na rua”, ou então que “os ciclistas também andam fora das ciclovias“… Na verdade, aqui entre nós, o que você procura é uma justificativa para que matar no trânsito  não seja crime e que essa conduta seja vista como algo “aceitável” pela sociedade. Calma, não estou dizendo que você quer matar alguém, não, estou dizendo que você sabe que a chance disso acontecer é real, que você morre de medo de algum dia, numa dessas suas desatenções, que você bata numa bicicleta, que derrube alguém, e que se isso acontecer você não vai querer ser tratado como um criminoso, não vai querer que a sociedade o veja assim, não irá querer uma foto do seu carro na imprensa, na Rei do Camarote Fortaleza, no Fortaleza de Bike ao Trabalho, no Direitos Urbanos, no Massa Crítica, e claro, não quer uma Carta Aberta como a da Luísa aqui na Prefiro ir de bike. Por isso você tem tanta dificuldade em se identificar com a mãe da criança e com a criança, principalmente se você não anda de bicicleta sozinho, no trânsito do dia-a-dia, se você não tem parentes familiares que pedalam, lembra do começo do texto, da empatia? Pois é. Geralmente nós nos identificamos mais com o que está mais próximo da nossa realidade.

Portanto você, motorista, que está profundamente incomodado de ler esse texto, ler uma verdade que lhe incomoda muito, que provavelmente você já está tentando se convencer de que nada disso é verdade, de que as coisas não são assim, não adianta, você só vai saber disso quando você pedalar no trânsito da cidade, até lá sua visão será extremamente limitada, e você saberá disso no momento que você estiver pedalando no trânsito (não em grupo de pedal). Vá de bicicleta para o trabalho amanhã. Não vai porque tem medo? Medo de que, de você ser o responsável por “se atropelar” ou de ser atropelado por um motorista qualquer? Você, que entra em empatia com motoristas que atropelam no trânsito, talvez não tenha percebido que, se você for atropelado no trânsito, as pessoas que hoje estão juntamente com você se solidarizando com quem atropela, irão continuar se solidarizando com quem o atropelar, já se imaginou, você ou um familiar seu sendo a vítima e várias pessoas colocando a culpa em você ou neles? Gostaria disso? Pois é o que muitos motoristas têm feito, talvez até você.

Fica claro que a tentativa de aliviar a barra de quem pratica crimes de trânsito é uma forma de dar uma garantia, uma segurança para o futuro, porque vai que amanhã seja você. Agora, vamos pensar, será que os que se solidarizam com quem praticou o homicídio ao invés de se   solidarizar com a criança e com a mãe também fariam isso se o menino tivesse levado um tiro de um assaltante enquanto pedalava? Com a mais absoluta certeza que não, mas por quê? Se a criança tivesse sido morta por um “vetim” vocês podem ter certeza que a repercussão e a reprovação social teria sido 100 vezes maior.

Os (As) Motoristas, as chamadas pessoas de bem, que são pais e mães de família, que trabalham… não saem por aí assaltando os outros e dando tiros, logo, se a criança tivesse sido morta dessa forma, aí sim teriam se identificado muito mais com a criança do que com o assaltante, mesmo que o tiro tenha sido acidental, mesmo que o assaltante dissesse que não sabia que a arma estava carregada, ou que pensou que era arma de brinquedo, pois seja de carro, moto, bicicleta ou a pé, todos são passíveis de serem assaltados. Porém, quando entra nos crimes de trânsito a situação já muda, pois eles sabem que atropelar um ciclista é uma possibilidade real para eles, muito mais do que serem atropelados enquanto pedalam, afinal de contas, não pedalam, ou se pedalam, fazem somente em grupos grandes.

E como já dito, essas pessoas também têm amigos, parentes e familiares que dirigem, que tiram finas de ciclistas, que dão fechadas, logo, sabem que existe uma possibilidade bem real disso acontecer na esfera deles, então precisam, mesmo que inconscientemente, se blindar de alguma forma, a chamada “reserva de atropelamento”, que se explica da seguinte forma: Sabem que eles ou pessoas queridas podem atropelar alguém, então é melhor se eximir da culpa, tirar qualquer peso de si e dos outros, já que ninguém quer ser considerado responsável em um atropelamento de ciclista ou pedestre, então é necessário pavimentar um caminho que pode ser trilhado no futuro. É mais fácil fazer isso do que dirigir em velocidade baixa, do que mudar de faixa para ultrapassar a bicicleta, do que olhar para os dois lados e para os retrovisores antes de fazer uma conversão, de deixar a bicicleta ultrapassar antes de fazer a curva, de respeitar uma preferencial…

Imagine agora se fosse você a pessoa morta naquelas circunstâncias, se fosse a sua mãe vendo você morrer daquele jeito, ou você que tem filho, familiares, você vendo essas pessoas morrerem. Agora imagine você vendo essa pessoa sendo arrastada por um SUV enquanto você desesperadamente grita para o motorista parar? E aí, pelo seu senso de moral, você se acharia o errado nessa história em qualquer circunstância? Pois é, será que já não está na hora de rever alguns conceitos?

Você que pensa do jeito do padrão de motorista ilustrado no texto, que ainda coaduna com criminosos de trânsito, pode ter certeza, tão certo quanto o sol amanhã irá nascer, que sua visão sobre isso vai mudar. Talvez não mude porque você será uma pessoa mais humana e consciente por vontade própria, pode até acontecer, e seria bom que fosse assim, mas isso, se ocorrer, pode levar algum tempo. Sua visão sobre isso irá mudar porque pessoas próximas a você irão começar a pedalar na cidade, elas irão começar a vivenciar os desrespeitos que motoristas como você praticam todos os dias nas ruas, vão discutir com pessoas como você, que desrespeita pedestres e ciclistas e ainda acha que está com a razão. Pessoas como você a cada dia que passa ficarão cercadas num mundo isolado, onde o grau de reprovabilidade da conduta de quem atropela ou desrespeita no trânsito será cada vez maior. O cerco está fechando. (Leia esse também).

Apesar de todo o teor consideravelmente crítico do texto, é importante deixar claro que isso não é uma generalização, mas trata sim de uma grande parcela dos motoristas de Fortaleza, e foi escrito especialmente para eles, talvez você seja um deles, mesmo que em parte, talvez não, mas o texto nivela por eles. No entanto, felizmente muitos motoristas estão começando a pedalar e outros tantos possuem mais consciência e sabem que no trânsito seus carros são perigosos e por isso devem sempre guiá-los com o máximo cuidado, sem inventar desculpas, sem justificativas para desrespeitar alguém.

As pessoas precisam aprender que não são motoristas, são pessoas, são seres humanos. Ser motorista não é pertencer a uma classe de pessoas, ser motorista é só ter uma CNH e saber guiar um carro, e boa parte das pessoas que andam de bicicleta são motoristas também, dirigem vez ou outra, logo, são tão motoristas quanto pessoas que se acham membros da “classe dos motoristas”. Você é motorista, é pedestre, é usuário de transporte público, é ciclista, é profissional de alguma área, é fã de alguma banda… Não se deixe levar por empatia como se você por “ser motorista” fosse da mesma “casta” de pessoas que cometem crimes de trânsito, uma “casta superior” na qual muitos motoristas pensam pertencer, só pelo fato de serem motoristas. Você, antes de tudo, é uma pessoa, frágil como aquela criança, portanto, importe-se mais e tenha mais empatia com quem de fato merece. Mas é claro, isso tudo no fim não passa de uma opinião, resta a você a palavra final.


Vinícius Reis

Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida

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Carta Aberta de autoria de Luísa Pinheiro

Carta aberta à motorista que quase interrompeu minha vida essa noite na ciclofaixa da Canuto de Aguiar

Você não deve saber, mas desde há pouco estamos comemorando o Dia Mundial Sem Carro. Tampouco você sabe que dia 31/08 completou um ano desde que eu deixei de ser motorista e virei ciclista em tempo integral. Nesse tempo a minha vida e as minhas percepções mudaram sobremaneira. Na verdade elas já vinham mudando há mais tempo, mas enfrentar o trânsito oferecendo a fragilidade do meu corpo como único escudo todo os dias sedimentou essas mudanças. Mas desconfio que você não se importa.

Se você se importasse, não teria convergido atravessando uma ciclofaixa em tamanha velocidade com um carro tão grande sem ver se havia algum ciclista passando. Por um átimo de segundo eu me vi embaixo do seu carro de mais de duas toneladas. Vi meus planos para o futuro serem esmagados pelo peso da sua pressa. Vi meu filho sem mãe. Minha mãe sem filha. Tive uma crise nervosa quando finalmente parei, depois que a descarga de adrenalina estabilizou e a ficha caiu. Chorei horrores, no meio do supermercado, enquanto tentava manter a normalidade da minha rotina. Ainda não consegui dormir de tão angustiada. Mas você não deve se importar.

Se você se importasse, ao conseguir escapar por uma combinação de sorte e reflexo, mesmo ainda tendo sido colhida de rebarba (até agora há pouco, antes de conseguir tomar banho, ainda tinha as marcas do seu pneu gigantesco no meu joelho esquerdo, como ainda está marcado o aro amassado da minha bicicleta) e te alcançar dois quarteirões depois (porque não importa sua pressa numa cidade onde não cabem mais carros) você não teria me dito cinicamente que eu deveria colocar um pisca alerta pra você poder me enxergar. Eu tinha acabado de te dizer que você quase havia me atropelado, mas você não ligou. Fez pouco caso, debochou, sugeriu que a culpa fosse minha porque, olha só, minha bicicleta não tem algo que é obrigatório apenas para veículos *motorizados*.

De dentro do seu carro caro, com fumê e ar condicionado, alto, acima dos reles mortais, você não liga. Não duvido que você não tenha me visto mesmo, porque gente como você não tem capacidade de enxergar os outros. Pessoas como você são a pior espécie de gente que pode existir nessa cidade. São o motivo de eu tantas vezes pensar em ir embora daqui. Não é o vetim que também anda de bike e rouba celular não. É gente rica escrota. Igual a você. Porque inclusive o vetim só existe porque vocês são assim, podres e ruins. Atropelam tudo e todos, real ou metaforicamente, não se importam com ninguém.

Por não me conhecer, você também não sabe que eu trabalho no IJF. E não sabe que toda semana eu recebo vítimas do trânsito lá. Muitos, ciclistas. A maioria vítimas de atropelamento por pessoas que, como você, não se importam de preservar a vida dos outros. Não tenho estatística formal, é um dado empírico (que eu pretendo transformar em pesquisa acadêmica, agora mais do que nunca) mas em cada dez ciclistas que atendo no plantão, cerca de sete são atropelamentos e não meras quedas. Já tive muitos amigos atropelados. Já soube de outros tantos casos, de mortes e vidas interrompidas pela invalidez. Essa foto chocante que está aí é de uma paciente que operei há alguns meses, atropelada enquanto pedalava. É o resultado direto da irresponsabilidade de motoristas como você. Mas você não se importa.

A você importa sua pressa. Seu status. Sua aparência. O que são vidas diante disso, não é mesmo? Não te conheço, nem sei seu nome ou o que você faz, mas pelo breve encontro que tivemos hoje, eu posso dizer com segurança que, pra mim, você é uma pessoa ruim. Porque alguém que quase mata outra pessoa e, ao saber disso, não se preocupa com a integridade física dela ou em saber se ela está bem mas com a cara mais cínica tenta jogar a culpa pra cima da vítima não pode ser uma pessoa bacana. Não dá.

O que me entristece é saber que você está longe de ser a minoria no trânsito dessa cidade. Que quando acordar, no dia mundial sem carro, eu vou continuar colocando minha vida em risco pela escolha que eu fiz, e da qual não abro mão, de me locomover de um jeito mais racional e humano pelo lugar onde nasci e vivo há 37 anos. Vou continuar sentindo vontade de ir embora quando outra pessoa ruim como você cruzar meu caminho (e, acredite, isso acontece todos os dias. Todos.) porque cansa demais ser resistência num lugar tão hostil. Talvez eu vá um dia. Mas até lá, continuarei vivendo da forma que eu acredito, e não da forma que o medo impetrado pelas pessoas ruins quer me dizer que eu devo. Mesmo que eu pague com a vida.


Luísa Pinheiro, cirurgiã buco-maxilo-facial no Instituto Doutor José Frota (IJF).